terça-feira, setembro 18, 2007

Varanasi.


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Dia 125, 6844Km. Varanasi, India.
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Benares is older than history, older than tradition,
older ever than legend, and look twice as old

as all of them put together.

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Com o calor, que a humidade mantem colado ao corpo em permanencia, a estadia de dois dias e meio em Varanasi (Benares) e sentida ja como a minha despedida do pais. Amanha volto a dedicar as horas diarias a pedalar, esperando que tres etapas sejam suficientes para alcancar a fronteira nepalesa.
Sem o ter programado, em absoluto, fara com que complete precisamente dois meses na India.
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Em Agra, visitei o Taj Mahal, como previsto e prometido ao Tomas.
Talvez nao me tenha encontrado na escala do encanto que lhe atribuem mas sinto-me satisfeito no registo da visita.
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Taj Mahal.


Agra Fort.






Agra.


Pormenor de rickshaw.

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A viagem de autocarro ate Varanasi correspondeu exactamente ao que previa. As 18 horas anunciadas traduziram-se em 21. Quando finalmente coloquei o pe no chao, pela ultima vez (porque foram varias, em inumeras paragens) desejava, mais do que nunca, poder voltar a viajar e contar com a autonomia do meu proprio veiculo.
A condicao de viajante de tejadilho nao assegura que este ultimo possa estar isento de danos. Por pouco, deixava parte da sua, esbelta e tubular, carcaca de metal numa ponte rebaixada pelo chao que cedeu. Tive que subir (cada um cuida da sua propria bagagem), retirar a bicicleta, esperar que o autocarro testasse, mais uma vez, a possibilidade da tangente (desta vez sem reconhecer a interseccao com o famigerado guarda-lamas que ja perdeu a conta aos empenos) e voltar a coloca-la.
Nas horas nocturnas pude estender-me no lugar triplo de vinil e dormir por etapas.
A viagem nao foi tao ma quanto isso. Sendo o unico passageiro a fazer o trajecto completo entre Agra e Varanasi, permitiu criar alguma cumplicidade com os dois motoristas e controlador. Manifestando algum interesse pela criatura ate lhe ofereceram um cha. O chapeu lhes tiro, repetidamente, pela bravura enquanto profissionais do volante nas estradas indianas. A "parede" direita do autocarro, aposto que vai perdendo expessura em cada viagem. Tal e a frequencia de tangentes, o desgaste provocado pela massa de ar gerada entre os veiculos que se cruzam e a potencia dos sinais sonoros.
Como resumo, estou ansioso em voltar a deslocar-me por conta propria.
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Chegada a Varanasi...
Multidao cercando o ciclista, mal dormido, enquanto albarda a viatura. "What is this?", "From wich country do you belong?", "Where are you going?", "What is your good name, Sir?", "Are you married?"...
O caos... como em qualquer outra cidade indiana.
No entanto, e curioso como, bastando comecar a pedalar, me sinto proprio com outros "poderes". A confianca inunda o espirito numa dose de forca. Tudo me parece mais ameno e passivel de ser agradavelmente contemplado quando me desloco sobre pedais. Entro no desordenado esquema da massa de transito, fluindo como os demais. Precisando os angulos necessarios a evitar tocar nos rickshaws, esquivando vacas e motocicletas, guardando a distancia exacta as rotulas dos peoes...
Sera da estrela que pintei no guiador quando montei a bicicleta para esta viagem?
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Varanasi.

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Por fim, cheguei a Old City.
E um verdadeiro labirinto. Ruas, por vezes, tao estreitas ao estricto ponto de so permitir o cruzamento de duas pessoas mas onde circulam motos, repousam gordas vacas e avancam algumas bancas.
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Old City. Varanasi.

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Instalei-me na Shanti Guest House. Nao se esta nada mal. Negociei o valor de 100 rupias (menos de 2 euros) por um quarto com "attached bathroom".
A minha companheira dorme a parte. Nao por interdicao da gerencia mas por interdicao das minhas proprias pernas. O alento desceu na proporcao da subida das escadas para o segundo andar. A bicicleta tem um "quartinho" no res-do-chao, junto com uma amiga, roda 28, original do pais que visitamos, e uma arca frigorifica.
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Varanasi e uma das mais antigas cidades, povoadas, do mundo.
Mantem, numa tradicao continua, a sua vida religiosa desde o sec. VI a.C. Em parte, situando-se a margem da corrente principal da actividade politica e desenvolvimento historico do subcontinente mas no centro do universo hindu.
Trata-se do ponto principal de focagem de uma geografia religiosa que se estende desde a gruta himalaica de Amarnath, em Kaxemira; a Kanyakumani, o ponto mais austral indiano; Puri a Este e Dwarka a Oeste.
Hindus veem o Ganges como amrita, o elixir da vida. Traz purificacao aos vivos e salvacao aos mortos.
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Vida e morte tocam-se ombro a ombro em Varanasi; entre os banhos "purificantes" no Ganges, a que os devotos acedem a partir dos inumeros "ghats" (mais de cem - ghats sao as escadarias de acesso ao rio) e o fumo libertado pelas piras funebres - significando a libertacao final do tormento das almas causado pelo incessante ciclo de morte/reencarnacao, nomeado como samsara.
Morrer em Varanasi, nas margens do "rio da vida" traz imediata moksha (iluminacao e redencao).
Idosos e moribundos chegam aqui em busca de refugio para completar os ultimos dias de vida, encontrando abrigo nos templos.
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A guest house onde pernoito situa-se no alinhamento do Manikarnika Ghat, o principal local de cremacao.
Simbolizando criacao e destruicao, encontra-se permanentemente em actividade.
Os corpos sao banhados no rio, em purificacao e depois colocados sobre estruturas de madeira que sera incendiada.
A quantidade de lenha e comprada previamente. Do tamanho da pira funebre se pode depreender a dedicacao ou a possibilidade economica dos familiares.
Nao assisto a uma unica lagrima. Explicam-me que a contencao se baseia na crenca de gerar descanso as almas.
Cortejos funebres passam aqui com muita frequencia (corpos envoltos em panos, cobertos de flores e carregados em ombros sobre "macas" de bambu).
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"Ghats" de Varanasi.


A lenha, necessaria a cremacao funebre, e pesada.

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Neste momento ja consigo fazer directamente o caminho ate ao hotel a partir de duas direccoes diferentes. Pode nao parecer, mas o feito exigiu muita concentracao e tornou bem dispendioso o registo de referencias visuais.
A Varanasi posso atribuir o popular slogan: "primeiro estranha-se, depois entranha-se".
O choque inicial (mais uma prova de frieza rodoviaria; o assedio dos condutores de rickshaw e "angariadores de hospedes"; a frequencia e exposicao dos ritos funebres...) da lugar ao reconhecimento de que, ao fim de dois dias, me vou sentindo familiar com o lugar. Esta e uma optima sensacao que fui tendo ao longo de varios sitios. Por vezes, ate pode acontecer num simples momento, em algum local onde dedico apenas o tempo de passagem. E o sentimento de estarmos de acordo com o lugar, do privilegio de ir "vivendo" um pouco pelo mundo; de nos reconhecermos e, ate, sermos reconhecidos nos lugares.
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Rio Ganges.







Margens do Ganges. Ligacoes entre "ghats".

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Amanha volto a estrada.
Terei oportunidade ainda de me despedir das intensas experiencias deste pais (com a dimensao cultural e ambiental de um continente). De reclamar a tolerancia a producao de novas e refrigeradas doses; de pedir a sensibilidade que trate o melhor possivel aquilo que recebe; de esperar que a memoria seja carente de zonas escuras e beneficie de uma correcta assimilacao de tudo o que continuo a receber em grandes doses.
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A todos um grande abraco e a gratidao pela regular presenca.
Ja com carimbo de entrada em solo nepales ou ainda tonificado em cha masala e conexao paga em rupias indianas, a reabertura de sinal esta prometida.
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Imagens que serao oferecidas ao rio.


Vista do terraco da guest house.

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Uma imagem para a Ines...


... e esta porque e emblematica. (Spiti Valley).

11 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Olá, meu querido!
Novo texto, certamente acabadinho de chegar.
Fico sempre impressionada com a tua resistência, sobretudo física, que te permite tudo ver, tudo explorar com o entusiasmo e o encantamento de sempre...
As imagens mostram uma realidade que não pode deixar de surpreender os nossos olhos de ocidentais. Como tu dizes, esse espanto inicial transforma-se noutra coisa e depressa te "familiarizas" com o que te rodeia. Nem todos temos essa capacidade de assim olhar e perceber o diferente!...
Que a tua pedalada seja sempre feita sob a protecção divina ( a estrelinha, como dizes ).
Vou-te mandando mails,( espero que já não muitos ), ainda que não me respondas! Ah, não era para dizer esta...
Muitos, muitos beijinhos.
Tia

9:48 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Eh Janecas
Hoje foi umdia formidável para mim, pois passado pouco tempo de me telefonares já estou a deleitar-me com o teu espantoso relato de viajem (fotos incluídas).
Não sei onde vais arranjar forças para tão duros percursos. Além disso, a comida daí também não deve ajudar nada por ser totalmente diferente da nossa.
Se te apanhas a "atacar" um daqueles petisquinhos cozinhados cá pelo velhote!...
Espero que o resto do percurso que falta fazeres seja tão do teu agrado como o que já fizeste e que a tal estrelinha (pelos vistos não é uma estrela cadente, mas sim,a estrela do norte)te oriente sempre no bom caminho.
Um grande beijinho da gerência tão orgulhosa do filho que tem.

10:30 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Olá João
Parece que esta zona é mais bonitinha pelo menos mais colorida.
O Taj Mahal não foi o que esperavas
eu tinha alguma curiosidade sobre ele talvez tambem não gosta-se tanto como eu pensava.Mais uma etapa espero que tão boa como até agora.
Um abraço e até breve ou não?
Setembrina Figueira

11:37 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Olá meu amor
Acabadinha de ler mais um dos teus fantásticos textos!
Eh filhote,é mesmo difícil,por vezes,pensares ser possível teres vivido o que e quanto nos tens(e tão bem como só tu sabes)´transmitido ao longo destes 3 meses!!!
Que possas "fechar "com chave de ouro esta extraordinária odisseia que tiveste o privilégio de viver.E,para nós ,não foi um privilégio menor poder acompanhar-te e apoiar-te...

Um grande,enorme beijinho da mãe

11:52 da manhã  
Anonymous Inês said...

João,

Adorei as fotografias todas,mas como é óbvio adorei mais uma vez a tua lembrança.
Grandes são as expectativas de todos sobre o Taj Mahal,mas pelos vistos a tua opinião é muito parecida com todos os que o visitam. Conta a lenda, que quem o visita, consegue achar o verdadeiro amor de sua vida,convivendo com ele ate a morte. Será que é verdade?
Muitos beijinhos de
todos

2:22 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Olá, João!
Como sempre fiquei muito satisfeita com+uma transmissão do já famoso "Rádio Tamarugo".
Impressionada com algumas imagens,deliciada com a narração e mais esclarecida sobre a cultura dum País tão diferente do nosso.Pela minha parte só me resta agradecer-lhe por tudo aquilo (que é muitissimo)que nos tem conseguido transmitir e ensinado através desta longa viagem.Obrigado João.
Continuação de uma boa viagem, um grande abraço dos amigos:São e Luis

6:03 da manhã  
Anonymous Sofia said...

Querido João,
que fotografias mais uma vez extraordinárias! Eu tinha ficado com alguma pena de não ter ido a Varanasi mas, agora, com teu relato e imagens, sinto até que fui! Obrigado por preencheres as "falhas" da minha viagem! E até das viagens que ainda não fiz!;) Quanto ao Taj, é fantástico, mas senti o mesmo que tu! Achei que me ía sentir mais impressionada mas, com aquela perseguição permanente e cansaço dos 2 meses anteriores, (nada igual ao teu cansaço, claro!!)não vibrei assim tanto! Mas como sabia da lenda de que fala a Inês, lá fui eu fazer meus pedidos junto ao mausoléu!!
Que pedales cheio de ânimo nesta última etapa desta aventura! Nepal tb tem um poder grande de atracção sobre nós! Fico à espera de teus relatos e impressões!Muitos beijinhos!

7:21 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Continuo a adorar as descrições! E, cada vez mais impressionada com a força que te move!
...bonitas as fotografias mas de uma realidade que não nos deixa ficar indiferentes.
Bjos! Susana

2:12 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Grande João,
Mais uma vez a assistir aos teus relatos tão impressionantes...a julgar pelas tuas fotos nem sei como conseguem viver no meio desse caos,deve ser como tu dizes, primeiro estranha-se e depois entranha-se...
Um grande bem haja...
NM

4:42 da tarde  
Anonymous DAM said...

VIVA Jonhie!
Já não venho ao teu blog a tanto tempo! Há tantas novidades para ler!
Tenho muitos saudades tuas! Quando poderes vê o teu email!
grande beijinho da DAM e o do miguel!

8:41 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Hola Joao!
Estoy intentando seguir tus relatos al mismo tiempo que hago un master en la lengua Portugesa, creo que unos pocos dias mi dominio del idioma va a ser total...
Animo compañero, sigue peldaleando firme tomando tu dirección, regalanos tus fotografia y relatos, el recuerdo de los dias que pedaleamos juntos en Ladhak, tardaran en olvidarse.

un fuerte abrazo!!

Xavi

9:26 da manhã  

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