terça-feira, setembro 04, 2007

May peace prevail on earth.


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Dia 112, 6208Km. Kaza, India.
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Para dormir descansado, faltava tentar subir em bicicleta ao Kardung La.
Este e considerado o passe rodoviario mais alto do mundo: 5600m.
Desde Leh (3500m), dista 40Km.
Sendo considerada uma zona restricta, foi necessario, atraves de um operador turistico (unica forma possivel), conseguir uma autorizacao. Por 100 rupias, tive acesso a um papel, autenticado pelo governo, onde figurava o meu nome, dois italianos e um alemao (que nunca conheci... as autorizacoes fazem-se em grupos de quatro e as agencias tratam de formar os elementos).
Estavam-me concedidos quatro dias para visitar a area reservada. Esperava que um dia fosse suficiente...
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Saio cedo.
Os primeiros 24 Km de subida nao me pareceram dificeis. Subi em bom ritmo e entusiasmado. Cheguei a South Pullu. Um pequeno assentamento militar e controlo policial. Tomo um cha masala na unica, e obscura, dhaba existente.
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Volto a carga, curva apos curva.
Nos 10Km que antecedem o topo, o asfalto desaparece. O que tambem desapareceu, quase de golpe, foi a minha forca...
Comeco a sentir-me muito cansado. Seria da altura? Ja tinha estado nesses valores, com muito mais peso (agora trazia pequena bagagem, apenas em prevencao contra o frio).
Descansei dois dias...
Recordo-me que, nessa manha , nao tinha comido grande coisa. Pelo menos, a altura da empreitada.
Recorro as bolachas, sem apetite.
Em cada Km paro e tento ganhar animo para o seguinte. Nao me conformava, como era possivel? Estava tao perto e tao longe...
Era cedo, havia tempo para continuar a tentar.
Literalmente, paro de Km em Km. Doseando em esforco cada uma destas marcas. Chego a adormecer nos tempos de descanso.
Podia caminhar mas estava determinado a nao o fazer. Desde Milao que cada metro foi conseguido a golpe de pedal e tento manter a marca.
Comeca a nevar, de forma muito timida. A montanha e surpreendente. Consigo ver Leh, muito mais em baixo, e perceber como a cidade estara sob o conforto da presenca solar.
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Falta pouco... acabo por chegar. A cantina militar que me disseram existir no topo (onde esperava tomar um cha para repor animo) esta fechada.
Tempo para vestir roupas de abrigo, fotografar, apreciar as vistas para Norte. Continua a nevar. Graos de neve, sem pretensao de chegar a flocos.
O Kardung La regista a presenca da dupla em 15 minutos e tomamos o caminho de regresso.
Estava satisfeito, havia conseguido.
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Volto a passar, recordando, agora em descida, os lugares onde descansei. Onde as duvidas de chegar ao topo se colaram como as rodas ao chao.
Continuava surpreendido pela diferenca que podem fazer 10Km. Nao atribuia toda a dificuldade a altitude (tinha a confianca dos dias anteriores). Devia perceber que, simplificando, ha dias assim.
Em Leh, comemoro com uma lasanha de espinafres.
Ja estou sozinho. Os meus amigos/hermanos partiram no dia anterior para nordeste, em direccao a Srinagar. Vao com tempo contado, ja tem bilhete de aviao para regressar a Delhi desde a capital de Kashmir.
Ainda pedalei com eles nesse dia, acompanhando-os em 15Km desde Leh. A zona demasiado militarizada nao favoreceu encanto para mais...
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Bom, o Kardung La estava feito, podia dormir descansado?... Nao.
Tinha comprado uma passagem que me levaria de novo ate Manali (o mesmo trajecto que fizemos em bicicleta ao longo de 7 dias). Partia as 2 da madrugada.
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A hora marcada marquei presenca no local onde ja deveria estar o jipe. Eu e mais 7 pessoas. O jipe... nada. Outros foram partindo. Nao havia sinal da matricula correspondente ao rascunho no verso do meu bilhete.
Ouvimos o ruido de um motor, ao longe, que chega apressado. O israelita diz: "It must be him, comes in a rush!"
Era mesmo! As rodas estacam em travagem brusca. O condutor grita: "Manali!"
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O meu lugar e a frente, a janela (o da bicicleta... no tejadilho). Com o condutor, somos 3 na fila dianteira. No meio, vai um suico bem grande. As suas pernas, evitando o morro da caixa de velocidades, tombam sobre as minhas.
Esperavam-nos 16 horas de viagem por uma estrada que me parece encontrar na bicicleta o meio mais seguro de ser percorrida.
Apesar do desconforto, de nao saber o que fazer com a cabeca por nao encontrar nenhum lugar para a apoiar, vou conseguindo dormir. Paramos em Pang para pequeno-almoco, Darcha para almoco... Lugares que recordo, onde dormi, comi...
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Como e diferente apreciar o trajecto na boleia de um motor e encerrado num habitaculo...
O Tata Sumo, que faz esta viagem duas vezes por semana, parece inquebravel. Resiste a todas as pedras. O condutor nao se incomoda muito em contorna-las. A maior parte das vezes nao e possivel de todo. Quando quase atascamos, por duas vezes, diz-nos: -"Get off"! Mais leve, a maquina descola.
Furamos, todos ajudamos um pouco a trocar o pneu... o canadiano vomita corean noodles...
Bom, que importam os detalhes? "May peace prevail on earth". (Esta escrito no topo, a toda a largura, do para-brisas). That really matters.
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A hora a que o jipe devia chegar a Manali, estamos no lugar onde eu queria chegar: Khoksar.
Descemos a empoeirada bicicleta e despeco-me dos meus colegas da epopeia motorizada.
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Volto a registar-me no dormitorio, pagando 15 rupias.
Quero seguir viagem pelo Spiti Valley. Este caminho comeca 5Km mais a frente. E demasiado tarde para comecar a pedalar.
Na mesma dhaba onde comi ha dias atras, repito arroz com lentilhas. So ja nao encontro o rato no mesmo lugar.
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Pela manha, acompanho, em contra corrente, o rio Chamba.
Apos 23Km, alcanco Chatru. E um pequeno lugar, junto a uma ponte, constante de 4 a 5 dhabas. Como Veg Chowmein as 11 da manha e preparo-me para o resto do trajecto. Estou avisado de que o caminho ira piorar, pedra muito mais solta.
Apesar disso, quero passar o Kunzum La (4500m) e chegar a Losar.
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A estrada, comeca a estar, de facto, pessima para ciclismo. Quase nao encontro solo firme e a progressao e feita saltando, contornando, lutando pela aderencia...
Encontro, em sentido contrario, 5 ciclistas neo-zelandeses que me dizem que nao conseguirei chegar ao Kunzum La, que o terreno se torna ainda pior.
Mais a frente, encontro um ciclista indiano que confirma a veracidade dos pontos negativos. Tambem me diz que, se conseguir chegar ao topo, chego a Losar (18km depois, sempre a descer).
A paisagem compensa. O rio esta sempre presente, com uma forca enorme. Por vezes, a estrada desaparece e tambem se converte em caminho de agua.
Comeco a avistar as dhabas de Bhatar mas leva uma eternidade chegar ate elas. O ritmo e lento.
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Chegado ai, nao ha muito tempo a perder. Atravessando o rio, comeca a subida de 11km ate ao topo do Kunzum La. Como dois ovos cozidos, reabasteco de agua... e comeco a subir. Tenho duas horas de luz.
Serpenteando a encosta, vou-me distanciando do rio e comecando a perceber qual a localizacao do passe aonde a estrada me leva.
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Necessito flash para fotografar a placa onde se inscreve: "Welcome to Spiti Valley".
Cheguei ao topo mas o sol ja se despediu ha muito e a escuridao vai tomando conta da paisagem.
Boa, estou a 4500m, a lua ainda nao "nasceu" (e duvido que o faca...), percebo mal a estrada, a lanterna ja a ofereci, faltam-me ainda 18Km para a proxima povoacao - Losar...
Acima de tudo, estou confiante de que chegarei, mais tarde ou mais cedo. Sei que o terreno sera sempre em descida e, na altura em que entender que o desafio deixa de ser ciclavel, posso caminhar.
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Um camiao que me ultrapassa tem a vantagem de localizar uma luz branca no diferencial traseiro. Mesmo a jeito para um ciclista com dificuldades de navegacao...
Tento acompanha-lo mas, apesar de travar muito, e mais rapido do que eu. Acabo perdido na sua nuvem de po.
Ainda nao desisti de descer sobre rodas. O caminho continua muito mau. Vou percebendo o contorno da estrada mas nao consigo evitar, porque nao identifico, as pedras maiores.
A roda da frente, projectada no ar, vai "aterrando" onde pode e desloco-me em varios sentidos.
O esperado revela-se certo e acabo por cair. O ciclista isento de danos, a bicicleta... nao consigo ver.
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Teria feito uns 5Km quando passo junto a umas tendas (mal as percebo) e ouco: -"Hello! Hello!".
-"Hello!", respondo aos dois vultos. "How many Km's to Losar?", pergunto.
-"Twelve, stay here".
Percebi que eram trabalhadores da estrada. Pergunto se tem sitio para eu dormir e respondem afirmativamente.
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Sob um ceu estrelado como nunca tinha assistido antes, realizo que a minha estrelinha, favorecedora dos melhores encontros, continua presente e muito activa.
Ajudam-me a subir a bicicleta numa pequena elevacao ate a encostar ao tractor Mahindra. Ligam o motor para que o par de farois nao descarregue a bateria e eu possa encontrar o saco-cama. A tenda onde dormiremos esta mesmo ao lado.
"Dinner!", dizem-me, apontando para a tenda do outro lado da estrada.
Primeiro, desfiam um pedaco de sarapilheira para fazer uma torcida. Perfuram a tampa de um frasco de medicamentos (agora contendo gasoleo) e enfiam a torcida, mergulhando-a no gasoleo. Temos luz!
Afinal, sao quatro rapazes.
Nao tardam a apresentar-me um grande prato de arroz e lentilhas. Ardendo de picante. Nao ha mal que entre num corpo habituado a estes condimentos.
Tinha pedalado 9 horas para vencer 70Km. Nao ha palavras que descrevam o agrado da refeicao.
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Os meus anfitrioes sao muito simpaticos. A boa maneira india.
A tenda e exigua para todos. Um dos rapazes insiste em comer do lado de fora. A sarapilheira colocada no chao corresponde ao lugar de honra que me concederam.
A comunicacao nao e fluida pois nao falam muito ingles. O sorriso e universal e suficiente para nos entendermos.
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A noite e muito fria e o saco-cama nao esta a altura de uma tenda tao ventilada.
Passo frio. Equilibrados sao os tempos entre sono e vigilia.
Recebo com alegria os primeiros raios de luz. Poderei voltar a pedalar e tentar aquecer.
Como poderei retribuir tanta generosidade?
Uma forma, para nos tao simples e acessivel, e bastante apreciada por estes lugares: a fotografia. Estes rapazes (com parcas roupas furadas e remendadas, sandalias sem meias, vivendo na montanha e sujeitos a duro trabalho) agradecem muito a oportunidade de poderem ser retratados.
Com a promessa de envio das imagens para as direccoes que me apontaram, saio em direccao a Losar.
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Outro belo encontro! Nao bastava estar a viver esta experiencia himalaica num ambiente onde me sinto tanto a gosto...
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O terreno continua muito mau. Num planalto onde, finalmente, encontro sol descoberto para me aquecer, aprecio os estragos da noite anterior. Nada de especial: um suporte de garrafa de agua partido e o guarda-lamas torcido (...uma vez mais; esta e a sua segunda especialidade, para alem da principal).
Apos uma reparacao, a 4000m, continuo viagem.
Estava longe de Losar. Poderia ter chegado na noite anterior mas o terreno nao conhecia melhoras. Significava, duras penas.
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Em Losar, uma pequena aldeia, tomo o pequeno almoco e apresento os meus repeitosos cumprimentos, e passaporte, ao policia.
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Benvindo seja o alcatrao!
Os meus amigos da noite anterior ja me tinham dito: "After Losar, very best! Black, black!" (apontando para o chao).
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Cruzo a ponte sobre o rio Spiti e continuo a pedalar.
A energia esta em baixo. Acho que assinala a noite mal dormida mais o tardio repor de forcas do pequeno-almoco...
Em Hansa, outra aldeia ainda mais pequena que Losar sou recebido por criancas que fotografo e que mais a frente me disturbam a sesta. Sao obedientes e terminam respeitando a horizontalidade do ciclista.
Recupero alguma forca.
Como em Hal e chego a Kaza, povoacao maior. Tinha percorrido 72Km, fraco de energia mas com o vento em misericordia e paisagens empenhadas em fazer esquecer as dificuldades.
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Este post segue com uma unica imagem, a menina que tive por companhia durante o almoco de ontem.
A ligacao a internet e demasiado lenta e irregular para conseguir mais uploads. O texto foi escrito por etapas (aquelas em que a corrente electrica esta disponivel).
Nos "intervalos" tratei dos tramites para obter o inner-line permit. Dentro de um dia, entrarei em outra zona restricta e controlada.
Tenho concedidos 7 dias para fazer uma parte da estrada. Serao suficientes para o que pretendo, levando-me a pedalar a menos de uma dezena de Km's da fronteita tibetana.
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Muito obrigado pelas vossas mensagens e pelo voto de confianca a corrente.
Eu tambem acredito que chegara ao fim.
Um grande abraco a todos.

15 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Olá meu amigo. Como admiro a tua, despretensiosa, tenacidade. Afinal qualquer caminho parece ser transitável para a lusitana marin e seu intrépido "pedaleiro". Que tenhas muitos kilómetros de paz, generosidade e alegria. Um abraço enorme da família Melo.
May peace prevail on earth.

6:33 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Olá João,
Mas que viagem tão atribulada esta última, conseguida c/muito sacrificio e grande força de vontade na concretização de um sonho,penso eu.Mais uma vez "PARABÉNS" meu querido amigo,não será já altura de começar a descer para o nosso cantinho à beira mar plantado?Desculpe-me esta observação mas penso que todos os ouvintes do "rádio tamarugo" estão desejosos de poder saudar (ao vivo) o nosso querido narrador e estimado amigo.Continuação de boa viagem um grande abraço dos amigos; São e Luis

6:33 da manhã  
Blogger ontheroad said...

Namaste João
apenas há pouco soube (através da Teresa e Pedro) desta tua fantástica aventura.
tens a partir de hoje mais um seguidor avido dos teus fantásticos relatos e fotos.
o vale de spiti foi das partes mais bonitas das minha viagem em duas rodas(enfield) nos Himalaias, e os teus relatos trazem-me vividas recordacoes.
shanti shanti..

8:05 da manhã  
Anonymous ana teresa said...

"Enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar, enquanto houver estrada para andar..."

Estou cheia de saudades tuas.
Toma lá um xi-coração.

8:42 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Grande João,
Força ai e alimenta-te de muitos hidratos de Carbono...
Sempre sintonizado
Um Abraço
NM.

8:52 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Eh Janecas
Se o avô estivesse entre nós decerto diria: havê-los há-os, não os procuram...
É de facto cada vez mais surpreendente a narração do teu percurso nesses lugares tão inóspitos, mas ao mesmo tempo tão belos.
Será que te vais aguentar muito mais tempo? Espero bem que sim.
Quem aos seus sai, não degenera!...
A tua "estrelinha" e as nossas preces têm sido suficientes para ultapassar todas essas tão complicadas barreiras mas não facilites demasiado filhote querido.
Ficamos sem fôlego...
Que continues podendo alcançar tão sensacionais vitórias para teu prazer e nosso enorme orgulho são os desejos dos cotas.

1:06 da tarde  
Anonymous Sara e Paulo said...

E que estrela, hein?!

Um abraço.

5:20 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Olá João,
Temos acompanhado esta tua espectacular viagem e temos vivido com os teus pais momentos de puro orgulho. As tuas descrições são fantásticas. Continua esta tua viagem com toda a sorte do mundo. Esperamos mais novidades.
Beijos e abraços do Afonso, Carla (the teacher)e Luis.

3:34 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

...sigo-te novamente. Procuro acompanhar a pedalada e, por cada palavra e cada frase vou admirando mais a tua vontade e coragem! Continua em força! Bjos, susana

3:46 da tarde  
Anonymous ana teresa said...

Só para dares uma vista de olhos:

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?section_id=13&id_news=294364

not bad!
beijo

4:15 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Ola João
Admiro a tua força pois percorres caminhos pouco transitáveis
Ves muita paisagem e bastante diversa mas deves passar algum frio e tambem calor.
Beijos e um grande abraço para o rapaz mais corajoso de Portugal e talvez quem sabe do mundo
Resto de uma muito boa viagem

6:15 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

João acabei de te enviar um comentário mas já pela segunda vez não assimei.
Setembrina Figueira

6:19 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Ola, joao, desejo que continues a tua faceta com força e que os teus objectivos sejam atingidos. J´´a sofreste bastante para chegares at´´e ai, agora so mais um pouco, força. Mostra que ainda ha homens aventureiros como no tempo dos descobrimentos. Cuida de ti e volta depressa para a tua fam´´ilia que te ama e olha.. as saudades...que devem ter de ti.
bjs.
M.Bileu

1:07 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

P.S. Se o Bileu estivesse entre nos diria: "grande maluco" como ele costumava dizer. Deus te acompanhe...
M.Bileu

1:15 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Olá João Que inveja! Um beijo grande. Continuação de uma boa viagem pelo Nepal. Fátima e Augusto

5:08 da manhã  

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