Segunda-feira, Outubro 08, 2007

Finisterra.


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Dia 145, 7871Km. Kathmandu, Nepal.
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Quando Patchi se despe totalmente e entra no mar de Finisterra dizendo: "voy hacer esto a los 60 porque no se si lo podre hacer a los 61", fiquei-me pelo registo da piada, nao percebendo a profundidade da licao.
Exactamente um ano volvido (aconteceu a 5 de Outubro de 2006), recordo o lugar onde terminei uma caminhada de 30 dias, com a mochila no lugar que lhe e devido, na companhia de Patchi, Joseba (ambos bascos) e Pera (catalao).
Agora percebo que Patchi, muito mais vivido, clarificava e descrevia um conselho: o de viver o momento. A felicidade, em forma de projecto, tem um valor de risco demasiado elevado.
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Ha 143 dias atras, uma particular arvore, marcando o inicio do bosque nas traseiras de uma bomba de gasolina, nas proximidades do aeroporto de Malpensa (Milao), abrigava a estreia de uma tenda.
Nao era o unico objecto cheirando a novo. Os alforges tinham ainda a sua cor original: um vermelho vivo e brilhante, por degradar ainda nas futuras horas de longa exposicao solar.
Dentro de essa tenda, couberam todos os objectos, um corpo e uma cabeca cheia de duvidas e receios iniciais.
O ponto de partida da viagem estava ali finalmente definido. De repente, depois de meses no ambiente seguro e nao desafiante de uma rotina e necessario, num curto espaco de tempo (porque a noite se aproxima rapidamente depois do trem de aterragem pisar solo italiano), libertar a bicicleta da clausura cartonada, repor a sua condicao ciclavel, adorna-la dos necessarios vultos e procurar guarida (comecando, de raiz, por uma das principais regras da vida cicloturistica: poupar nas dormidas).
Estava em Milao, queria chegar a Kathmandu... nao cobrindo a totalidade do trajecto por terra mas, para comecar, tentar chegar a Istambul.
Um joelho, recentemente lesionado, nao favorecia nada a positividade do augurio...
Bom... na vantagem de dispor de tempo, pude aplicar-lhe liberdade numa medida com poucas restricoes. Pude viver cada momento, recolhendo e seguindo sugestoes de visita; gozando cada lugar no minimo que lhe entendi corresponder.
Assim, dupliquei a distancia que previ pedalar e, favorecido e abencoado pelo destino, acumulei encontros e paisagens de grande beleza.
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Entre Sauraha e Kathmandu encontro-me absorvido nas montanhas de Terai. Estes dois ultimos dias em bicicleta resumem a essencia de toda a viagem: paisagens magnificas, exigencia fisica q.b., encontros muito gratificantes, tranquilidade na medida desejada, a forte e relaxada confianca no imprevisto sempre a revelar-se uma boa opcao...
Territorio muito bonito. Intensamente coberto de verde; com desniveis prolongados.
A noite encontra-me ainda na montanha e dou leito ao sono no alpendre de uma casa. Como me senti bem... Reconheci o privilegio de a ultima noite "de estrada" poder ser assim vivida, isento de receios, sob o ceu estrelado onde tocavam os cumes que, nas horas de luz, me foram proporcionando as melhores vistas.
O sono nao se encerra em quatro paredes e o saco-cama toca as rodas do meu heroico veiculo expedicionario; a temperatura e agradavel; estou reconfortado por uma refeicao na aldeia anterior, acompanhado de varias criancas e uma moca com pretensoes de casamento (!); as curvas da montanha desencorajam o trafego nocturno dos ruidosos camioes... que mais posso pedir?
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Montanhas de Terai.

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Mas... voltando atras.
Saindo de Pokhara, a meteorologia concede-me as primeiras horas de uma manha em que as nuvens continuam motivadas a tapar o sol. Este ultimo, com a forca que lhe e caracteristica, nao tarda muito a inverter as posicoes e, na ultima colher de muesli com curd (iogurte) do pequeno-almoco, ja pude prever um ambiente bem mais seco que o dos dias anteriores.
Nesta manha, finalmente, apreciei o relevo do conjunto montanhoso do Annapurna. O cume do Machhapuchhare (Fish Tail) e particularmente impressionante. Tinha vontade de pedalar mas ao mesmo tempo lamentava nao me demorar mais, aproximando-me de ainda melhores vistas.
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Cume do Machhapuchhare.



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Um marco, a saida de Pokhara, assinala Kathmandu a uma distancia de 195Km.
E a primeira vez que vejo este nome gravado numa indicacao rodoviaria.
Nao tencionava tomar esta ligacao de forma directa. Ainda queria inverter para sul, a caminho do Royal Chitwan National Park.
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Depois de Pokhara, a 195Km de Kathmandu.

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O dia foi pouco exigente ao nivel fisico e, mais uma vez, muito compensador ao nivel paisagistico.
Continuo a apreciar muito a simpatia do povo nepales, a privacidade que me reservam e a natureza espontanea e cuidada do seu pais.
Atravesso varias povoacoes. Sempre com o caos rodoviario caracteristico desta parte do mundo. Os transportes publicos nao conhecem limites na lotacao dos passageiros e vendedores de fruta negoceiam nas suas janelas.
A cerca de 100Km do Lakeside de Pokhara dou o dia por terminado, em Mugling.
A povoacao nao e particularmente atraente. Representa sobretudo uma oferta logistica no cruzamento de duas estradas principais. Cada porta e um restaurante. Muitos destes estabelecimentos oferecem tambem alojamento. Nao e um lugar para turistas, destina-se mais aos, locais, profissionais do volante. Tenho alguma dificuldade em fazer-me entender.
Por fim, logro repor a energia dispendida num prato de momos (empadas tibetanas) de galinha e encontrar um quarto onde aguardar que os olhos deixem de se concentrar nas linhas redigidas por Jack London para darem lugar a outros caminhos do inconsciente.
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Mugling.

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No dia seguinte, a 95Km de Kathmandu, abandono a Prithvi Highway (uma das principais estradas do Nepal), tomando o sul, ao longo do rio Trisuli.
Mais uma vez, o cenario e arrebatador nesta sub-tropical regiao de Terai.
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Rio Trisuli.


Faixas para colocar no interior da cabine dos camioes,
no topo do para-brisas.


Entre Mugling e Sauraha.

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Chego a Sauraha (65Km) a horas de almoco.
Nao o sendo tanto a zona central, com evidentes marcas de orientacao turistica (dada a proximidade do Parque Nacional), todo o entorno desta vila e marcadamente rural. Quase todas as construcoes se encontram no modo tradicional: finas paredes de barro agregado a uma estrutura de canas e telhados em colmo.
O gado circula livremente pelas ruas: cabras, vacas e bufalos. Elefantes tambem se encontram, muitos; em estabulos construidos a sua dimensao ou caminhando de forma pesada mas elegante, transportando o seu tratador ou um grupo de turistas encaixado numa gaiola de madeira.
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Sauraha e proximidades.

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Instalo-me numa das casas de barro e colmo que circundam o jardim do lodge "Bull Bull's Nest". Todas as comodidades, com o bonus da riqueza de experimentar as propriedades da arquitectura tradicional e o trato afavel e genuino, a boa maneira nepalesa, por 150 rupias (1 euro = 90 rupias).
Sauraha encontra-se na margem do rio Rapti. Cruzando as suas aguas, encontra-se o limite norte do Royal Chitwan National Park.
Este Parque, com 932Km2, foi proclamado em 1973 como forma de travar a alarmante rapidez com que diminuia o numero de vida selvagem nesta regiao de Terai, particularmente rinocerontes e tigres, devido a perda de habitat natural pelo avanco das povoacoes.
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Nao e permitido entrar nos limites do parque de forma independente. Pelo risco do encontro com o numero abundante de animais (aproximadamente 465 rinocerontes, 80 tigres, 50 outras especies de mamiferos que incluem ursos e leopardos, 450 tipos diferentes de aves, duas especies diferentes de crocodilos...) e como forma de controlar a preservacao da natureza e o respeito pelas regras da visita.
Num dos muitos operadores com guias credenciados pelo Parque (para tal necessitam de 4 anos de formacao) marco uma caminhada de dois dias.
Sera um trajecto circular, com dormida numa outra aldeia.
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A hora marcada (06:00) sento-me a mesa para o pequeno-almoco com Man. Rapidamente me diz:
-Come, come inside. Wild elephant!
Entramos na construcao de zinco e o seu proprietario apressa-se a fechar as portadas. Atraves de uma frecha vemos o enorme animal que todas as manhas atravessa o rio e visita a aldeia em busca de dois "F's": Food and Female.
Trata-se de um elefante selvagem que vive no Parque e vem a Sauraha atraido pelas elefantes femea domesticas e pela variedade de comida. Mais tarde, verifico os estragos feitos na parede de uma casa que continha reservas de arroz.
A visita e curta e assumida pelos locais com uma habituada naturalidade. Vemo-lo cruzar o rio de volta ao Parque e retomamos o pequeno-almoco.
Terminada a refeicao, Man apresenta-me os dois guias que me acompanharao: Krishna e Tika.
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Avisados da presenca de um rinoceronte caminhanmos ao longo da margem de Sauraha.
Este enorme animal com marcas pre-historicas encontra-se num banco em meio do rio. Podemos aprecia-lo tao demoradamente como pretendemos e so depois cruzar o rio numa longa e estreita canoa construida numa so peca.
O tronco esculpido de uma arvore com madeira leve e macia e a materia destas embarcacoes que, pela fraca resistencia a favor do peso, tem uma vida util de apenas 5 anos.
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Ao longo de todo um dia de caminhada, cerca de 19Km atraves de diferentes tipos de vegetacao: elephant grass (erva muito alta; pode atingir os 7 metros) e variantes de floresta, observamos mais um rinoceronte, por tempo muito breve, no interior de um lago, notamos a presenca de um urso, vemos crocodilo e meio (deste ultimo, semi-mergulhado, so se via a cabeca e parte da cauda) e pegadas frescas de tigre e veados.
A maior interacao com animais regista-se nas sanguesugas. Frequentemente temos que retira-las das pernas. Quando se demoram, o fio de sangue leva muito mais tempo a ser estancado. Tika ensina-me qual o tipo de erva que, macerada, se pode aplicar para interromper o fluxo sanguineo. Parece que resulta.
Ja de noite, assustamo-nos tanto como um grupo de veados no interior da floresta. O seu movimento subito toma-nos de surpresa.
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Cruzamos o rio em outra canoa e acedemos a aldeia de Katgai. Passamos a noite num lodge semelhante aquele, de Sauraha, em que repousa a minha bicicleta.
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Retomamos a caminhada pela manha. O solo da floresta esta coberto de vegetacao menos densa que a do dia anterior. Progredimos de forma mais facil.
A certa altura temos que cruzar um rio a nado.
Depois de passarmos em seguranca todos os objectos (a camara fotografica em particular...) volto a mergulhar, gozando a frescura da agua... ate Krishna me dizer:
-Sir, you may come. In fact, there is some danger of crocodiles in this area.
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Mimetismo total.


- "I think it is deadly poisonous".
Diz-me Krishna quando lhe mostro esta imagem.
(captada no dia entre Pokhara e Mugling)




Pegada de tigre.



Rio Rapti




Passagem de rinoceronte.




Krishna.





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Estamos de regresso a Sauraha as 14:00. Mesmo a tempo de comer um bife de Yak no restaurante "Jungle View".
Nao tinha visto muitos animais mas a possibilidade de ter caminhado ao longo de um ambiente totalmente novo e em muito boa companhia compensou largamente.
Krishna e Tika sao duas pessoas genuinas. Revelam ter muito prazer em ser guias da natureza. Muito competentes e profissionais, apresentam um interesse verdadeiro em que o cliente que acompanham possa encontrar satisfacao.
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Decido ficar mais um dia em Sauraha.
Passeio em bicicleta pelas redondezas, visitando pequenas comunidades de vida tradicional. Por vezes, as criancas tambem me guiam, expondo e explicando, a sua maneira, o porque de certos objectos, levando-me aos cantos que melhor conhecem...
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Tambem as criancas se fascinam com Jack London.
(tem na capa uma cena de luta entre um homem e um urso...)





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Sauraha e mais um lugar que abandono com vontade de me ter demorado mais tempo.
Ha que fazer caminho. Estou a 210Km de Kathmandu.
Posso descrever o dia como: "antes e depois de Hetauda". Ate esta cidade circulo sempre em terreno plano.
A partir de Hetauda o ritmo e, forcosamente, muito mais lento. Nos proximos 50Km irei sempre ganhando altitude.
Guardo montanha para o dia seguinte, dormindo junto a estrada, no tal alpendre onde me senti tao a gosto.
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Tadi Bazaar. (depois de Sauraha)




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A 6 de Outubro chego a Kathmandu.
24Km antes, encontro de novo a Prithvi Highway, em Naubise. Vencendo 10Km de subida e-me oferecida a primeira visao do vale de Kathmandu. Ao lusco-fusco vejo pela primeira vez os contornos da cidade tao desejada.
Atravesso as povoacoes que compoem os seus suburbios a medida que a noite cai.
Mais um fascinante e desafiador lugar, pujante de vida.
A confianca esta claramente instalada no guiador da bicicleta e, perguntando indicacoes (sempre correctas e fornecidas com simpatia) consigo chegar a Thamel.
Esta e a zona de Kathmandu tida como referencia para alojamento economico e variedade de restaurantes.
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Antes de mais, quero comer.
Encosto a minha companheira ao gradeamento verde do Yak Cafe e o animal que da nome ao estabelecimento e-me apresentado na forma de um fumegante bife.
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Apos as questoes logisticas do regresso a casa e agora tempo de apreciar a cidade continuando a receber as boas surpresas desta viagem.
Voltarei a escrever, aqui ou ja em Portugal, dando conta dos dias que se seguem.
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Um abraco onde caibam todos, com a gratidao habitual pelas visitas e seu registo.

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P.S.: Em Sauraha conheci o Hari Bahadur Pariyar.
Hari era costureiro em Kathmandu.
A 5 de Junho de 2006, sofre um acidente no autocarro que o transportava entre a capital e Dhulikhel. Como consequencia e-lhe amputada a perna direita. Para custear as despesas hospitalares tem que vender a maquina de costura e outro equipamento. Deixa assim de ter o principal utensilio que lhe permite trazer rendimentos para si e para a sua familia (3 filhos).
Uma maquina de costura custa, no Nepal, cerca de 7500 rupias.
Dando uso (e aqui prestando contas) ainda ao credito das generosas doacoes dos amigos de Radio Tamarugo consegui entregar 6800 rupias (cerca de 75 euros). Nao pude dar mais pois nao tinha disponivel. Sauraha tem possibilidades de cambio mas nao tem ATM e fiquei com o imprescindivel para os dois dias de viagem ate Kathmandu.
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Hari Bahadur Pariyar

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Na Servia encontrei Philippe Jacq.
Caminhava desde o Monte Sinai, no Egipto, ate Santiago de Compostela, numa marcha pela paz. http://www.chacunsaroute.com/
Antes de Kathmandu encontro este casal de tibetanos que se dirige a Bodghaya (lugar, na India, onde Buda meditou e encontrou a revelacao que definiria a sua doutrina).
Caminham tambem numa marcha pela paz.
Nesta peculiar forma de peregrinacao, cada passo e acompanhado de uma prostracao total.

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...mais um para a lista. (em Pokhara)

Quinta-feira, Setembro 27, 2007

Pokhara.


Criancas nepalesas.
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Dia 134, 7463Km. Pokhara, Nepal.
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Felipe Rivera estava certo. La Junta podia encomendar as armas.
A comunicacao entre Los Angeles e a Baixa California estava reposta, encontrando-se o odioso Juan Alvarado com uma faca cravada no peito e, num numero de assaltos a que se perdeu a conta, por final, Rivera derrota Danny Ward no ring.
"The winner take it all". Com 5000 dolares, a revolucao mexicana podia continuar.
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Que faz Felipe Rivera no Nepal? Ja vem da India. Cruzou a fronteira comigo...
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Os dias correm inundados de novidades e o seu acumular, nao reportado, dificulta sempre o arranque do relato.
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Previa 3 dias entre Varanasi e a fronteira com o Nepal. Os calculos estavam errados, por excesso. Nao sabia que esta parte do estado de Uttar Pradesh era, tao claramente, uma zona nao turistica.
O sobrepovoamento e esmagadoramente evidente. A medida que avanco, sou chamado quase de forma permanente. A maior parte das vezes em tom de provocacao e gozo.
Parar, por um infimo segundo, equivale a que se aproxime alguem e que cada um dos meus gestos seja minuciosamente apreciado.
O sentido de propriedade material (sempre tentam tocar em alguma coisa, abrir mais um alforge semi-aberto, experimentar os manipulos das mudancas, travoes, conta Km...) e de espaco fisico nao existe ao nivel individual. O facto de um turista se encontrar em territorio alheio implica obrigatoriamente o despojo da privacidade e que se torne publico cada um dos seus actos e objectos pessoais.
Que recebo em troca? Direccoes erradas (quando pergunto alguma indicacao preferem apontar aleatoriamente a admitir o desconhecimento), tentativas de aproveitamento na inflacao dos valores...
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Os ultimos dias de moncao. India

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Deveria conseguir tolerar de forma mais relaxada e dar tempo a que surjam as excepcoes. Mas nao cheguei la. O tipo de comportamento que consegui ter foi um crescendo na escala de resistencia e nao de aproveitamento de algum tipo de prazer que as etapas me poderiam transmitir; apesar de a paisagem ser muito bonita, sempre verde, com frequentes campos de arroz.
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Senti-me cada vez mais "empurrado" para a fronteira com o Nepal, onde esperava um ambiente mais tranquilo.
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A partir de Varanasi, encontro a primeira noite em Mau.
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Pequeno-almoco, depois de Mau.

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No segundo dia, aproveitando que a motivacao e a forma fisica estavam para dar a volta ao mundo (e para sair deste canto de Uttar Pradesh...) pedalo mais de 200Km. Um quarto dos quais foi feito sob a luz natural da lua (que sossego...).
Nesses ultimos Km's desfruto realmente.
O luar esta forte e consigo perceber bem a estrada.
Nao ha transito algum.
Escuto o cantar de varios insectos e vejo as fugazes luzes de muitos pirilampos que ora voam ora cintilam nas copas das arvores mais altas dando-lhes um aspecto de "pinheiro de Natal". Nunca tinha assistido a tal fenomeno e realizo mais uma vez que momentos como este nao tem preco nem se podem incluir em nenhum pacote turistico. E de novo uma das boas surpresas que me traz a viagem em bicicleta.
Chego a Sunauli quase a meia-noite. Estou demasiado cansado para passar a fronteira, tratar das formalidades, etc.
Instalo-me no ultimo hotel do lado indiano, a excassos metros do portao que interrompe a rua principal de Sunauli, definindo o limite entre os dois paises.
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Na manha seguinte abordo a fronteira. Do mais simples que existe. O "immigration office" indiano e tao lateral e discreto que quase nao se da por ele. Ai recebem-me de forma muito simpatica e breve. Carimbo de saida e ja esta.
Do lado nepales, compro um visto que me permite uma estadia de 2 meses (30 dolares). Processo igualmente rapido.
Nepaleses e indianos circulam de forma livre, sem nenhum controlo. Esta mesma ausencia se estende aos turistas. Nenhum dos meus processos foi verificado.
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O Nepal e realmente mais tranquilo. Recupero os padroes de privacidade que desejo, notando tambem que o recurso as buzinas decai de forma drastica. Na India, parece que assistimos constantemente a final do campeonato de cricket mais importante da temporada ou que terminou a contagem dos votos para a eleicao presidencial e esta dado o inicio para a celebracao.
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Pedalo ate Lumbini, a cerca de 30Km.
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Lumbini e tido como o lugar de nascimento de Siddharta Gautama, fundador do Budismo.
A maior evidencia trata-se de um pilar, inscrito, colocado pelo imperador indiano Ashoka no sec. III a.C. aquando da sua visita em peregrinacao ao lugar de nascimento de Buda.
Junto a este monumento esta um tanque onde se afirma que Maya Devi se banhou momentos antes de dar a luz.
O enquadramento esta completo no dominio, por varios hectares, do Lumbini Garden onde existem diversos templos budistas, pertencentes a numerosos paises.
Faz muito calor. Aprecio a tranquilidade do jardim e as suas sombras.
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Lumbini Garden.


Ashoka Pillar.


Pedra que assinala o lugar de nascimento de Buda. Lumbini.

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Apos a noite, o corpo elucida-me quanto aos seus limites. Acusa o excesso de quilometragem (afinal, o risco de quebra nao e exclusivo da corrente...), o calor e a alimentacao demasiado repetida e ja pouco desejada.
Uma manha febril, completamente ausente de forcas, uma tarde a recuperar de forma lenta mas progressiva, uma noite sem novidade e... volto a pedalar no dia seguinte.
Nao avanco muito, pouco mais de 50Km. O corpo ainda nao esta pelos ajustes.
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Paro em Butwal. Tenho que comer mas nao ha absolutamente nada, disponivel, que me apeteca. Sei que se chegar a Pokhara (a 170Km) estou salvo.
Sendo um lugar muito mais turistico, a oferta e variada.
Continuo a apreciar muito o povo nepales. Simpatico, hospitaleiro, tranquilo e delicado.
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O ritmo mantem-se lento e a progressao nao acumula grandes distancias.
As montanhas comecaram exactamente a saida de Butwal. A paisagem e fascinante. O verde domina, junto com a agua que corre nas paredes junto a estrada e no generoso rio que preenche o vale.
Ao fim de 42Km paro em Tansen. Desde manha que chove.
Encontro nesta encantadora vila a pausa do dia.
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Entre Butwal e Tansen.


Bus Stand em Tansen.



Tansen.

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A chuva ininterrupta, dia e noite, aumentando de intensidade, tinge o animo com novos tons de fraqueza e decido descansar outro dia. Com imensa pena, nao visito Tansen na forma que merece. Por casualidade, conheco o rapaz que trabalha no posto de turismo enquanto compro bananas numa loja. Fala-me da historia da vila e dos seus lugares mais interessantes. A chuva nao me permite explorar muito nem registar convenientemente.
Acabo por passar mais tempo na agradavel companhia de um belo e grosso livro de contos de Jack London que comprei em Varanasi. E nestas paginas que, entre outros personagens, vive Felipe Rivera...
Nas suas historias, frequentemente o homem vive em desafio extremo com a natureza. Talvez tambem ai tenha encontrado materia para a decisao de voltar a sair na proxima manha, virando costas a meteorologia e ao nivel, ainda nao reposto, das forcas que a montanha pedia.
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Nao parou de chover durante toda a noite. Este e o tempo ha mais de 48h.
Pokhara esta a 130Km. Chegarei?
O enquadramento continua magnifico. Campos onde o arroz cresce com determinada verticalidade trazem aos olhos o verde mais intenso.
Encontro varias povoacoes. Alimento-me de bananas e uma especie de massa frita em forma de donuts.
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A caminho de Pokhara.

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O terreno nunca e plano. Ora sobe ora desce, quase sempre sendo a inflexao antecipada por uma placa de "bridge ahead".
Continuo determinado a encontrar Pokhara apesar de perceber (embora practicamente nao pare de pedalar em todo o dia) de que serei recebido pelas suas luzes.
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Assim foi. Chego a Pokhara ja a noite tinha caido.
Desde o inicio da tarde que a chuva se tornou intermitente e, para o final, chego a encontrar pequenos pedacos do tao almejado azul do ceu.
Exactamente como desejei, janto no primeiro restaurante onde encontro comida continental.
Nao podia estar mais satisfeito. Tinha cumprido o desafio (neste caso, tambem uma pequena questao de sobrevivencia digestiva) e o tempo tinha melhorado.
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A partir de Pokhara, num dia claro, podem apreciar-se as melhores vistas para os picos da "Annapurna Range". Esta e a porta de acesso para algumas das principais e conhecidas rotas de trekking.
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A parte da povoacao onde me encontro e chamada de Lakeside. Deve o seu nome ao lago Phewa (o segundo maior lago do Nepal).
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Lago Phewa.

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Existem centenas de Guest Houses, restaurantes em cada outra porta com todo o tipo de menus, lojas com roupa tecnica para as actividades propostas por inumeras agencias, boas livrarias com tao interessantes titulos de montanhismo que me trazem pena nao caberem ja nos dois parcos alforges.
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Pokhara.

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Avancando um pouco para alem da povoacao, pela estrada que circunda o lago, percebo que a vida tradicional se encontra logo apos esta area dominada pelo desenvolvimento turistico. Aprecia-se na forma de extensas plantacoes de arroz com as gentes trabalhando na sua colheita e transportando-a em dokos (cestos de cana carregados as costas e suportados por uma tira a volta da cabeca), pescadores navegando em barcos muito simples, bufalos lamacentos...
So em 1950, com a erradicacao da malaria, se tornou seguro viver aqui e as estradas, permitindo a ligacao com Kathmandu e a fronteira indiana, foram apenas construidas em 1970.
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A chuva voltou e veste-se do mesmo caracter persistente. Infelizmente, os dias nao estao claros na medida necessaria a apreciar as vistas dos picos. Num dia limpo, poderia faze-lo, ganhando em altitude tanto quanto em plano privilegiado a partir da aldeia de Sarangkot, a cerca de 7Km.
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A conta de pratos italianos, lassis de banana e ananas (batidos com iogurte) ja me sinto restabelecido.
Amanha volto a estrada.
Encaminho-me para o Royal Chitwan National Park onde tenho encontro marcado com rinocerontes, elefantes, tigres e leopardos.
Sera o ultimo desvio antes do lendario lugar, presente ha decadas no lexico de viajantes: Kathmandu.
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A todos, um grande abraco.

Terça-feira, Setembro 18, 2007

Varanasi.


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Dia 125, 6844Km. Varanasi, India.
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Benares is older than history, older than tradition,
older ever than legend, and look twice as old

as all of them put together.

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Com o calor, que a humidade mantem colado ao corpo em permanencia, a estadia de dois dias e meio em Varanasi (Benares) e sentida ja como a minha despedida do pais. Amanha volto a dedicar as horas diarias a pedalar, esperando que tres etapas sejam suficientes para alcancar a fronteira nepalesa.
Sem o ter programado, em absoluto, fara com que complete precisamente dois meses na India.
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Em Agra, visitei o Taj Mahal, como previsto e prometido ao Tomas.
Talvez nao me tenha encontrado na escala do encanto que lhe atribuem mas sinto-me satisfeito no registo da visita.
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Taj Mahal.


Agra Fort.






Agra.


Pormenor de rickshaw.

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A viagem de autocarro ate Varanasi correspondeu exactamente ao que previa. As 18 horas anunciadas traduziram-se em 21. Quando finalmente coloquei o pe no chao, pela ultima vez (porque foram varias, em inumeras paragens) desejava, mais do que nunca, poder voltar a viajar e contar com a autonomia do meu proprio veiculo.
A condicao de viajante de tejadilho nao assegura que este ultimo possa estar isento de danos. Por pouco, deixava parte da sua, esbelta e tubular, carcaca de metal numa ponte rebaixada pelo chao que cedeu. Tive que subir (cada um cuida da sua propria bagagem), retirar a bicicleta, esperar que o autocarro testasse, mais uma vez, a possibilidade da tangente (desta vez sem reconhecer a interseccao com o famigerado guarda-lamas que ja perdeu a conta aos empenos) e voltar a coloca-la.
Nas horas nocturnas pude estender-me no lugar triplo de vinil e dormir por etapas.
A viagem nao foi tao ma quanto isso. Sendo o unico passageiro a fazer o trajecto completo entre Agra e Varanasi, permitiu criar alguma cumplicidade com os dois motoristas e controlador. Manifestando algum interesse pela criatura ate lhe ofereceram um cha. O chapeu lhes tiro, repetidamente, pela bravura enquanto profissionais do volante nas estradas indianas. A "parede" direita do autocarro, aposto que vai perdendo expessura em cada viagem. Tal e a frequencia de tangentes, o desgaste provocado pela massa de ar gerada entre os veiculos que se cruzam e a potencia dos sinais sonoros.
Como resumo, estou ansioso em voltar a deslocar-me por conta propria.
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Chegada a Varanasi...
Multidao cercando o ciclista, mal dormido, enquanto albarda a viatura. "What is this?", "From wich country do you belong?", "Where are you going?", "What is your good name, Sir?", "Are you married?"...
O caos... como em qualquer outra cidade indiana.
No entanto, e curioso como, bastando comecar a pedalar, me sinto proprio com outros "poderes". A confianca inunda o espirito numa dose de forca. Tudo me parece mais ameno e passivel de ser agradavelmente contemplado quando me desloco sobre pedais. Entro no desordenado esquema da massa de transito, fluindo como os demais. Precisando os angulos necessarios a evitar tocar nos rickshaws, esquivando vacas e motocicletas, guardando a distancia exacta as rotulas dos peoes...
Sera da estrela que pintei no guiador quando montei a bicicleta para esta viagem?
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Varanasi.

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Por fim, cheguei a Old City.
E um verdadeiro labirinto. Ruas, por vezes, tao estreitas ao estricto ponto de so permitir o cruzamento de duas pessoas mas onde circulam motos, repousam gordas vacas e avancam algumas bancas.
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Old City. Varanasi.

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Instalei-me na Shanti Guest House. Nao se esta nada mal. Negociei o valor de 100 rupias (menos de 2 euros) por um quarto com "attached bathroom".
A minha companheira dorme a parte. Nao por interdicao da gerencia mas por interdicao das minhas proprias pernas. O alento desceu na proporcao da subida das escadas para o segundo andar. A bicicleta tem um "quartinho" no res-do-chao, junto com uma amiga, roda 28, original do pais que visitamos, e uma arca frigorifica.
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Varanasi e uma das mais antigas cidades, povoadas, do mundo.
Mantem, numa tradicao continua, a sua vida religiosa desde o sec. VI a.C. Em parte, situando-se a margem da corrente principal da actividade politica e desenvolvimento historico do subcontinente mas no centro do universo hindu.
Trata-se do ponto principal de focagem de uma geografia religiosa que se estende desde a gruta himalaica de Amarnath, em Kaxemira; a Kanyakumani, o ponto mais austral indiano; Puri a Este e Dwarka a Oeste.
Hindus veem o Ganges como amrita, o elixir da vida. Traz purificacao aos vivos e salvacao aos mortos.
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Vida e morte tocam-se ombro a ombro em Varanasi; entre os banhos "purificantes" no Ganges, a que os devotos acedem a partir dos inumeros "ghats" (mais de cem - ghats sao as escadarias de acesso ao rio) e o fumo libertado pelas piras funebres - significando a libertacao final do tormento das almas causado pelo incessante ciclo de morte/reencarnacao, nomeado como samsara.
Morrer em Varanasi, nas margens do "rio da vida" traz imediata moksha (iluminacao e redencao).
Idosos e moribundos chegam aqui em busca de refugio para completar os ultimos dias de vida, encontrando abrigo nos templos.
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A guest house onde pernoito situa-se no alinhamento do Manikarnika Ghat, o principal local de cremacao.
Simbolizando criacao e destruicao, encontra-se permanentemente em actividade.
Os corpos sao banhados no rio, em purificacao e depois colocados sobre estruturas de madeira que sera incendiada.
A quantidade de lenha e comprada previamente. Do tamanho da pira funebre se pode depreender a dedicacao ou a possibilidade economica dos familiares.
Nao assisto a uma unica lagrima. Explicam-me que a contencao se baseia na crenca de gerar descanso as almas.
Cortejos funebres passam aqui com muita frequencia (corpos envoltos em panos, cobertos de flores e carregados em ombros sobre "macas" de bambu).
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"Ghats" de Varanasi.


A lenha, necessaria a cremacao funebre, e pesada.

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Neste momento ja consigo fazer directamente o caminho ate ao hotel a partir de duas direccoes diferentes. Pode nao parecer, mas o feito exigiu muita concentracao e tornou bem dispendioso o registo de referencias visuais.
A Varanasi posso atribuir o popular slogan: "primeiro estranha-se, depois entranha-se".
O choque inicial (mais uma prova de frieza rodoviaria; o assedio dos condutores de rickshaw e "angariadores de hospedes"; a frequencia e exposicao dos ritos funebres...) da lugar ao reconhecimento de que, ao fim de dois dias, me vou sentindo familiar com o lugar. Esta e uma optima sensacao que fui tendo ao longo de varios sitios. Por vezes, ate pode acontecer num simples momento, em algum local onde dedico apenas o tempo de passagem. E o sentimento de estarmos de acordo com o lugar, do privilegio de ir "vivendo" um pouco pelo mundo; de nos reconhecermos e, ate, sermos reconhecidos nos lugares.
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Rio Ganges.







Margens do Ganges. Ligacoes entre "ghats".

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Amanha volto a estrada.
Terei oportunidade ainda de me despedir das intensas experiencias deste pais (com a dimensao cultural e ambiental de um continente). De reclamar a tolerancia a producao de novas e refrigeradas doses; de pedir a sensibilidade que trate o melhor possivel aquilo que recebe; de esperar que a memoria seja carente de zonas escuras e beneficie de uma correcta assimilacao de tudo o que continuo a receber em grandes doses.
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A todos um grande abraco e a gratidao pela regular presenca.
Ja com carimbo de entrada em solo nepales ou ainda tonificado em cha masala e conexao paga em rupias indianas, a reabertura de sinal esta prometida.
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Imagens que serao oferecidas ao rio.


Vista do terraco da guest house.

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Uma imagem para a Ines...


... e esta porque e emblematica. (Spiti Valley).

Sexta-feira, Setembro 14, 2007

As maravilhas do mundo.




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Dia 121, 6774Km. Agra, India.
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Para quem fica, esta viagem pode parecer demasiado longa mas, na sucessao de acontecimentos, diversidade cultural e de ambientes, chego a considera-la demasiado rapida.
A bicicleta permite-nos viver o mundo de outra forma. Num ritmo mais atento aos detalhes, percebo como tanto tambem me escapa...
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Quando revejo as imagens na camara tenho dificuldade em crer ter vivido tais momentos. A globalidade das experiencias e tao densa e vasta que encontro nas fotografias preciosos auxilios para pontuar e sintetizar.
No entanto, este percurso aproxima-se do final.
Encaminhamo-nos para nova e ultima fronteira - o Nepal.
Ainda agora deixei o terreno das montanhas e ja me sinto a reclama-lo.
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Estou em Agra, a 400m da entrada Oeste do complexo do Taj Mahal.
Por partes, em arranque reticente da memoria, tentarei contar como aqui chegamos.
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Depois de um dia passado em Kaza, onde o rio Spiti corria timido num leito demasiado largo para o caudal de Verao, ligo de novo a energia aos pedais, tentando aquecer o corpo numa manha bastante fria.
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Uma fotografia do mosteiro de Dhankar, exposta sobre a mesa do World Peace Cafe, onde jantei na noite anterior, foi suficiente para me convencer a incluir este desvio na etapa tabelada com a aldeia de Tabo.
Tenho quatro fotocopias A3 das areas de Spiti e Kinnaur, onde tentarei seguir a linha negra mais grossa que me levara a Shimla, quase sempre acompanhando algum rio.
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O desvio ao mosteiro de Dhankar ("A place in the mountains unreachable for strangers") corresponde a uma subida de 9Km que compensa largamente o esforco dispendido. As vistas sobre o rio e as colinas guardando o vale que o contem, limpam todas as migalhas de duvidas da tomada de opcao.
Chove um pouco na subida; cumprimento mulheres/pastoras que aquecem cha numa fogueira, um jipe carregado de israelitas e outro casal motorizado que viria a conhecer na aldeia - irlandeses.
Visito o mosteiro nesta ultima companhia. Sao muito simpaticos. Percebemos que a construcao remonta ao sec XII. Algumas partes e estado de conservacao certificam a idade. Existem cerca de 100 monjes que formam a comunidade junto com outros tradicionais habitantes que se dedicam a agricultura e pastoricia.
A entrada, uma nova construcao destina-se a receber o Dalai Lama em 2008.
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Vista desde o mosteiro de Dhankar.


Dhankar, ainda ao longe.


Monjes estampam bandeiras de oracao. Dhankar.

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Ao gozo da paisagem, acrescento o prazer da descida, seguindo para Tabo, na esperanca de encontrar comida pelo caminho.
Pois, nada... O entorno vai balancando a reclamacao do estomago e a energia continua a corresponder ao pretendido... ate encontrar uma bela dose de arroz com lentilhas no Third Eye Cafe de Tabo.
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Tabo.

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A saida do restaurante, conheco um vendedor de artesanato que me apresenta a sua Gary Fisher (comprada a um turista americano) a reclamar manutencao, pastilhas de travao e, pelo menos, 10 raios na roda traseira. Quanto a roda, pouco consigo melhora-la. Ofereco as pastilhas que nao virei a utilizar (as minhas parecem interminaveis...), afino o desviador traseiro (o dianteiro, nao mexe de forma alguma) e ainda entrego de brinde a garrafa de agua desalojada na quebra do seu suporte.
O mecanico improvisado recebe uma pulseira de pedras coloridas, um amuleto tibetano, um copo de cha e a descricao de uma rota que me podera conduzir directamente ao Nepal, sem ter que o fazer mais a sul (hipotese que venho a abandonar por nao me conseguir certificar de que esta fronteira esta aberta a estrangeiros, nao indianos, e possa ai comprar o visto necessario a entrada).
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Alojo-me na Zion Guest House, com "very positive vibrations" de Reggae e como uma deliciosa Full Power Trojan Pasta (macarrao com toda a especie de vegetais) na companhia dos meus amigos irlandeses.
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Pela manha, tomo o caminho de Nako, pedalando facilmente junto ao rio.
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No cruzamento da aldeia de Chambo almoco momos (empadas tibetanas) de borrego (cartilagens do mesmo...) e engano-me na direccao pos-digestao subindo por um caminho errado. Nao fosse a tradicional pergunta indiana "where are you going?" (questao demasiado comum, a qual muitas vezes respondo, nao deixando de ser verdade: "I am going home") que, desta vez, nao me excusei a responder e ainda estaria pela montanha a procura de Nako.
O campones elucidou-me: "Nako? 18Km back...".
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E que 18Km... nao bastando o desalento de refazer caminho, o terreno presenteou-me uma subida interminavel, inospita, numa escala tao sobre a humana vontade, e capacidade, do momento quanto a magnificiencia da escala himalaica.
Que paisagem... a vastidao encontra-se diminuta como elemento descritivo.
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Nas bandeiras de oracao, fustigadas pelo vento, encontro a minha vitoria. Percebo que, desde agora, apenas me resta baixar , 4 Km ate Nako.
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Nako e uma aldeia muito bonita. Conservada na sua rural tradicao propria. Nao abundam as ofertas de alojamento. Encontrei apenas um grupo de turistas franceses que viajam em ruidosas Enfields (motos indianas, 350cc) num pacote organizado, com jipe de apoio.
E demasiado tarde para fotografar. Nao posso deixar de o fazer pela manha.
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Nako.

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Cumprido o devido registo, ingerida a dose matinal de Tsampa (farinha com leite) na "Tibetan Kitchen" onde tambem havia comido na tarde anterior, inicio uma descida de 30Km.
Ate agora, tinha como referencia maxima a Cuesta de Camarones no deserto de Atacama, Chile. Admirava-me de tal proporcao... uma subida/descida com 21Km!
Grande coisa... desconhecia os Himalaias...
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Este dia e fundamentalmente descrito em descida, no mesmo sentido da, tao ruidosa quanto rapida, corrente do rio. Apenas os ultimos Km's antes de Rekong Peo exigem que a corrente tome os lugares mais altos do eixo traseiro.
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Impressiono-me com a construcao desta estrada. Com o modo como foi possivel moldar a montanha permitindo o trafego motorizado.
As condicoes em que vivem e trabalham os seus operarios serao muito dificeis.
Tenho assistido muitas vezes a como a pedra e partida a golpe de martelo, sem nenhum outro recurso mecanico. A brita e, literalmente, feita a mao. O trabalho mais pesado corresponde ao sector feminino. As criancas, ou partilham todo o servico, em solavanco, amarradas as costas das maes, ou brincam entre as pedras e, por vezes, demasiado proximas de precipicios.
Nao bastando a dureza da tarefa, estes trabalhadores vivem in situ, em tendas improvisadas com plastico ou comunidades construidas com a chapa espalmada dos bidons de alcatrao.
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Eu ando aqui por gosto. Embora tambem canse, esta e a minha opcao e lamento que o caminho por onde passo, desfrutando, seja criado a conta de tais sacrificios.
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A paisagem, a medida que desco, vai tomando, de novo, o verde como cor predominante.
Rekong Peo e uma povoacao indiana por excelencia, abandonando a tranquilidade dos lugares a que vinha estando habituado.
Na banca onde compro bananas, encontro o grupo de israelitas que me tem ultrapassado de jipe e com os quais acabo por ir coincidindo nos lugares. Aconselham-me a subir ate Kalpa, 6Km. Muito mais tranquilo.
Acato a sugestao, atraido pela descricao de um lugar bucolico e pelos olhos da mocinha que, na janela lateral do todo-terreno me tem oferecido os melhores acenos...
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Realmente Kalpa e diferente. Muito mais calmo. Casas dispersas pelo terreno, completado com mata de pinheiros.
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Instalo-me numa Guest House, mais acessivel que aquela onde pernoitam os meus colegas.
Combinamos encontrar-nos em Sangla, no dia seguinte.
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Kalpa.

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Saio de Kalpa tao cedo que nao encontro pequeno-almoco em lugar nenhum.
Desco e acabo por so o fazer na estrada principal, junto ao rio. A dose foi fraca, nao me apetecia nenhuma das disponiveis e recorrentes especialidades indianas. Tomo chai com chocolates Munch ("you can't stop munching...").
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O trajecto, ate ao inicio da subida para Sangla, nao e propriamente apetecivel. A construcao de uma barragem transporta o ciclista para o ambiente de Mad Max. O trafego continuo de camioes, carregados de brita e cimento, levantando po (os meus oculos de sol tambem ja se partiram, solidarios com outros apetrechos...) ajuda a que a realidade se confunda com cenarios ficcionados.
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Mais uma linda subida... 20Km...
Durmo ao Km7...
Faltando 9Km, o sadu, guardiao de um templo junto a estrada, pergunta-me: "Rest? You don't rest? Sangla... 9Km...".
Nao, agora so paro em Sangla. Estou "zangado" com a subida e nao deixarei que leve a melhor.
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Subindo para Sangla.

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Vejo uma grande nogueira a entrada da povoacao. Feliz por encontrar tao apetecivel dose nutritiva, desengano-me ao perceber que esta especie de fruto e quase tao dura quanto a pedra com que a tento quebrar. Para alem disso, o miolo esta tao protegido num rendilhado de materia dura que nao vale o trabalho.
O que vale mesmo e a bandeja de lentilhas com arroz e o lemon tea em que, logo de seguida, me reconheco como satisfeito.
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Passo o resto do dia em descanso, comendo macas surrupiadas na horta traseira da Guest House, passeando na aldeia com o grupo de Israel e jantando Thantuk num restaurante servido por tibetanos.
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Sangla.

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Para sair de Sangla, faco o caminho inverso. Grande descida.
Paro a certa altura para comer pinhoes. Sao de um tipo que nao conhecia. A casca e fragil, abre-se a mao e tem um optimo gosto resinoso. E dificil desaloja-los da pinha. Ainda semi-verde encerra-os de forma persistente.
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Volto a passar no estaleiro da barragem, fazendo com que o veiculo, carga e passageiro adquiram uma pulverizada camada de lama.
A paisagem ja e sempre verde, contrastando com a exposta camada rochosa das vistas de montanha em dias anteriores.
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Consigo chegar a Rampur, como previsto.
Instalo-me no Hotel Highway Home:
-"We only have simple room. No bathroom attached..."
-"It's ok. 100 rupees? Very ok!"
Era tambem restaurante, onde jantei. Todos os clientes tinham uma predileccao especial por whisky...
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Pela manha, pensei conseguir atribuir ao dia a distancia de 130Km ate Shimla.
Nao sabia que me esperava uma continua subida de 35Km...
Esta so termina em Narkanda.
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Narkanda.

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Quando ai cheguei, ainda havia luz suficiente para continuar. Nao me agradou especialmente o lugar e, embora sabendo que nao poderia chegar a Shimla, a 60Km, decido pedalar mais um pouco.
Quem muito sobe, algum dia, tera que descer. E isso mesmo que o terreno me propoe.
Avanco 33Km e dou por encerrada a etapa em Theog.
Instalo-me em um dos piores quartos de sempre, o unico lugar de alojamento disponivel, mas, em contraste compensatorio, tomo uma das melhores refeicoes.
Era uma Dhaba escura, a entrada da rua principal, daquelas com um balcao de tachos expostos em fila para o exterior. Semelhante a tantas outras que tenho encontrado. Como ainda nao tinha encontrado era o sabor dos feijoes, favorecido pelo ambiente genuinamente simpatico que o proprietario oferecia. No final, foi distribuindo, de mesa em mesa, uma bandeja com doces benzidos.
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Restando-me apenas 30Km ate Shimla e, quase sempre, em sentido descendente chego, no dia seguinte, a capital do estado de Himachal Pradesh por volta das 09h00.
Ainda estou em processo de choque civilizacional, depois de tantos dias em ambiente rural e montanhoso. Por isso, a primeira opcao que tomo e a de averiguar acerca de autocarros para Delhi. Estou decidido a "saltar trajecto".
Compro bilhete para o autocarro mais imediato (11h00).
Perco uma visita a Shimla.
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Tenho o privilegio de esta viagem ser feita ao correr da vontade e a mesma continua sintonizada com as montanhas. Tirando uma visita a Agra e Varanasi, o desejo mais forte e o de voltar a pedalar em terreno himalaico, no Nepal.
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Chego a Delhi as 21h3o.
Circulo na cidade escura, tentando reconhecer ruas onde ja teria passado, perguntando...
Pretendo voltar a Pahar Ganj, ao mesmo hotel onde estive ("My Hotel", um nome a proposito...).
Em Conaught Place, paro para comer num restaurante de Fast Food.
Assisto a como uma cliente recusa uma sandes porque uma mosca lhe havia pousado. Por um breve momento, na face exterior do pao.
Que pais de contrastes... A porta do restaurante, o seguranca, ao trocar de turno, cede a camisa e as calcas (farda) ao colega que o vem render. Mudam de roupa a porta e um deles nem tem sapatos; nas arcadas ha corpos estendidos, a dormitar...
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Encontro o hotel pretendido. Reconhecem-me de imediato (so ai tinha estado uma noite, ha dois meses atras) e sinto-me agradado.
Nao me quero demorar em Delhi. Averiguo na recepcao sobre autocarros para Agra, apresentando a questao habitual sobre o transporte da bicicleta.
Ha um autocarro as 06h00. Hum... pois toma-lo-ei. Nao me demoro, de facto, em Delhi.
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Foi assim que aqui chegamos.
A cidade do Taj Mahal, no topo da classificacao das "Maravilhas do Mundo", tera igualmente nos lugares cimeiros a frequencia e persistencia dos conhecidos oferecedores de todo o tipo de servicos.
Tem tambem, uns deliciosos cubos de abobora, extra doces.
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Hoje e Sexta-feira, dia em que o monumento se encontra encerrado.
Aproveito para relaxar.
Amanha, tentarei cumprir a visita e, de tarde, tomo um autocarro para Varanasi.
Ja vi o veiculo. Nao parece aguentar o trajecto entre Ponte de Sor e o apeadeiro da Torre das Vargens mas, certamente, estara a altura da viagem de 18 horas...
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Ontem aproveitei para limpeza geral, no Hotel Sidharta.
Ate os alforges conheceram o sabao. Poderia obter receita vendendo a agua de lavagem da roupa a alguma fabrica de guaches. Poupariam imenso na base do negro.
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Radio Tamarugo voltara a emitir.
Comunicando que esta para durar, que quebra mas nao se extingue, nutrida com oleo para "Enfield" ha 2000Km... a corrente da bicicleta retribui cumprimentos.
Um grande abraco a todos.
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A montanha e moldada com explosivos.







Kibber Monastery.


Antes de Kaza.


Kaza.

Terça-feira, Setembro 04, 2007

May peace prevail on earth.


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Dia 112, 6208Km. Kaza, India.
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Para dormir descansado, faltava tentar subir em bicicleta ao Kardung La.
Este e considerado o passe rodoviario mais alto do mundo: 5600m.
Desde Leh (3500m), dista 40Km.
Sendo considerada uma zona restricta, foi necessario, atraves de um operador turistico (unica forma possivel), conseguir uma autorizacao. Por 100 rupias, tive acesso a um papel, autenticado pelo governo, onde figurava o meu nome, dois italianos e um alemao (que nunca conheci... as autorizacoes fazem-se em grupos de quatro e as agencias tratam de formar os elementos).
Estavam-me concedidos quatro dias para visitar a area reservada. Esperava que um dia fosse suficiente...
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Saio cedo.
Os primeiros 24 Km de subida nao me pareceram dificeis. Subi em bom ritmo e entusiasmado. Cheguei a South Pullu. Um pequeno assentamento militar e controlo policial. Tomo um cha masala na unica, e obscura, dhaba existente.
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Volto a carga, curva apos curva.
Nos 10Km que antecedem o topo, o asfalto desaparece. O que tambem desapareceu, quase de golpe, foi a minha forca...
Comeco a sentir-me muito cansado. Seria da altura? Ja tinha estado nesses valores, com muito mais peso (agora trazia pequena bagagem, apenas em prevencao contra o frio).
Descansei dois dias...
Recordo-me que, nessa manha , nao tinha comido grande coisa. Pelo menos, a altura da empreitada.
Recorro as bolachas, sem apetite.
Em cada Km paro e tento ganhar animo para o seguinte. Nao me conformava, como era possivel? Estava tao perto e tao longe...
Era cedo, havia tempo para continuar a tentar.
Literalmente, paro de Km em Km. Doseando em esforco cada uma destas marcas. Chego a adormecer nos tempos de descanso.
Podia caminhar mas estava determinado a nao o fazer. Desde Milao que cada metro foi conseguido a golpe de pedal e tento manter a marca.
Comeca a nevar, de forma muito timida. A montanha e surpreendente. Consigo ver Leh, muito mais em baixo, e perceber como a cidade estara sob o conforto da presenca solar.
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Falta pouco... acabo por chegar. A cantina militar que me disseram existir no topo (onde esperava tomar um cha para repor animo) esta fechada.
Tempo para vestir roupas de abrigo, fotografar, apreciar as vistas para Norte. Continua a nevar. Graos de neve, sem pretensao de chegar a flocos.
O Kardung La regista a presenca da dupla em 15 minutos e tomamos o caminho de regresso.
Estava satisfeito, havia conseguido.
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Volto a passar, recordando, agora em descida, os lugares onde descansei. Onde as duvidas de chegar ao topo se colaram como as rodas ao chao.
Continuava surpreendido pela diferenca que podem fazer 10Km. Nao atribuia toda a dificuldade a altitude (tinha a confianca dos dias anteriores). Devia perceber que, simplificando, ha dias assim.
Em Leh, comemoro com uma lasanha de espinafres.
Ja estou sozinho. Os meus amigos/hermanos partiram no dia anterior para nordeste, em direccao a Srinagar. Vao com tempo contado, ja tem bilhete de aviao para regressar a Delhi desde a capital de Kashmir.
Ainda pedalei com eles nesse dia, acompanhando-os em 15Km desde Leh. A zona demasiado militarizada nao favoreceu encanto para mais...
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Bom, o Kardung La estava feito, podia dormir descansado?... Nao.
Tinha comprado uma passagem que me levaria de novo ate Manali (o mesmo trajecto que fizemos em bicicleta ao longo de 7 dias). Partia as 2 da madrugada.
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A hora marcada marquei presenca no local onde ja deveria estar o jipe. Eu e mais 7 pessoas. O jipe... nada. Outros foram partindo. Nao havia sinal da matricula correspondente ao rascunho no verso do meu bilhete.
Ouvimos o ruido de um motor, ao longe, que chega apressado. O israelita diz: "It must be him, comes in a rush!"
Era mesmo! As rodas estacam em travagem brusca. O condutor grita: "Manali!"
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O meu lugar e a frente, a janela (o da bicicleta... no tejadilho). Com o condutor, somos 3 na fila dianteira. No meio, vai um suico bem grande. As suas pernas, evitando o morro da caixa de velocidades, tombam sobre as minhas.
Esperavam-nos 16 horas de viagem por uma estrada que me parece encontrar na bicicleta o meio mais seguro de ser percorrida.
Apesar do desconforto, de nao saber o que fazer com a cabeca por nao encontrar nenhum lugar para a apoiar, vou conseguindo dormir. Paramos em Pang para pequeno-almoco, Darcha para almoco... Lugares que recordo, onde dormi, comi...
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Como e diferente apreciar o trajecto na boleia de um motor e encerrado num habitaculo...
O Tata Sumo, que faz esta viagem duas vezes por semana, parece inquebravel. Resiste a todas as pedras. O condutor nao se incomoda muito em contorna-las. A maior parte das vezes nao e possivel de todo. Quando quase atascamos, por duas vezes, diz-nos: -"Get off"! Mais leve, a maquina descola.
Furamos, todos ajudamos um pouco a trocar o pneu... o canadiano vomita corean noodles...
Bom, que importam os detalhes? "May peace prevail on earth". (Esta escrito no topo, a toda a largura, do para-brisas). That really matters.
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A hora a que o jipe devia chegar a Manali, estamos no lugar onde eu queria chegar: Khoksar.
Descemos a empoeirada bicicleta e despeco-me dos meus colegas da epopeia motorizada.
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Volto a registar-me no dormitorio, pagando 15 rupias.
Quero seguir viagem pelo Spiti Valley. Este caminho comeca 5Km mais a frente. E demasiado tarde para comecar a pedalar.
Na mesma dhaba onde comi ha dias atras, repito arroz com lentilhas. So ja nao encontro o rato no mesmo lugar.
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Pela manha, acompanho, em contra corrente, o rio Chamba.
Apos 23Km, alcanco Chatru. E um pequeno lugar, junto a uma ponte, constante de 4 a 5 dhabas. Como Veg Chowmein as 11 da manha e preparo-me para o resto do trajecto. Estou avisado de que o caminho ira piorar, pedra muito mais solta.
Apesar disso, quero passar o Kunzum La (4500m) e chegar a Losar.
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A estrada, comeca a estar, de facto, pessima para ciclismo. Quase nao encontro solo firme e a progressao e feita saltando, contornando, lutando pela aderencia...
Encontro, em sentido contrario, 5 ciclistas neo-zelandeses que me dizem que nao conseguirei chegar ao Kunzum La, que o terreno se torna ainda pior.
Mais a frente, encontro um ciclista indiano que confirma a veracidade dos pontos negativos. Tambem me diz que, se conseguir chegar ao topo, chego a Losar (18km depois, sempre a descer).
A paisagem compensa. O rio esta sempre presente, com uma forca enorme. Por vezes, a estrada desaparece e tambem se converte em caminho de agua.
Comeco a avistar as dhabas de Bhatar mas leva uma eternidade chegar ate elas. O ritmo e lento.
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Chegado ai, nao ha muito tempo a perder. Atravessando o rio, comeca a subida de 11km ate ao topo do Kunzum La. Como dois ovos cozidos, reabasteco de agua... e comeco a subir. Tenho duas horas de luz.
Serpenteando a encosta, vou-me distanciando do rio e comecando a perceber qual a localizacao do passe aonde a estrada me leva.
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Necessito flash para fotografar a placa onde se inscreve: "Welcome to Spiti Valley".
Cheguei ao topo mas o sol ja se despediu ha muito e a escuridao vai tomando conta da paisagem.
Boa, estou a 4500m, a lua ainda nao "nasceu" (e duvido que o faca...), percebo mal a estrada, a lanterna ja a ofereci, faltam-me ainda 18Km para a proxima povoacao - Losar...
Acima de tudo, estou confiante de que chegarei, mais tarde ou mais cedo. Sei que o terreno sera sempre em descida e, na altura em que entender que o desafio deixa de ser ciclavel, posso caminhar.
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Um camiao que me ultrapassa tem a vantagem de localizar uma luz branca no diferencial traseiro. Mesmo a jeito para um ciclista com dificuldades de navegacao...
Tento acompanha-lo mas, apesar de travar muito, e mais rapido do que eu. Acabo perdido na sua nuvem de po.
Ainda nao desisti de descer sobre rodas. O caminho continua muito mau. Vou percebendo o contorno da estrada mas nao consigo evitar, porque nao identifico, as pedras maiores.
A roda da frente, projectada no ar, vai "aterrando" onde pode e desloco-me em varios sentidos.
O esperado revela-se certo e acabo por cair. O ciclista isento de danos, a bicicleta... nao consigo ver.
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Teria feito uns 5Km quando passo junto a umas tendas (mal as percebo) e ouco: -"Hello! Hello!".
-"Hello!", respondo aos dois vultos. "How many Km's to Losar?", pergunto.
-"Twelve, stay here".
Percebi que eram trabalhadores da estrada. Pergunto se tem sitio para eu dormir e respondem afirmativamente.
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Sob um ceu estrelado como nunca tinha assistido antes, realizo que a minha estrelinha, favorecedora dos melhores encontros, continua presente e muito activa.
Ajudam-me a subir a bicicleta numa pequena elevacao ate a encostar ao tractor Mahindra. Ligam o motor para que o par de farois nao descarregue a bateria e eu possa encontrar o saco-cama. A tenda onde dormiremos esta mesmo ao lado.
"Dinner!", dizem-me, apontando para a tenda do outro lado da estrada.
Primeiro, desfiam um pedaco de sarapilheira para fazer uma torcida. Perfuram a tampa de um frasco de medicamentos (agora contendo gasoleo) e enfiam a torcida, mergulhando-a no gasoleo. Temos luz!
Afinal, sao quatro rapazes.
Nao tardam a apresentar-me um grande prato de arroz e lentilhas. Ardendo de picante. Nao ha mal que entre num corpo habituado a estes condimentos.
Tinha pedalado 9 horas para vencer 70Km. Nao ha palavras que descrevam o agrado da refeicao.
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Os meus anfitrioes sao muito simpaticos. A boa maneira india.
A tenda e exigua para todos. Um dos rapazes insiste em comer do lado de fora. A sarapilheira colocada no chao corresponde ao lugar de honra que me concederam.
A comunicacao nao e fluida pois nao falam muito ingles. O sorriso e universal e suficiente para nos entendermos.
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A noite e muito fria e o saco-cama nao esta a altura de uma tenda tao ventilada.
Passo frio. Equilibrados sao os tempos entre sono e vigilia.
Recebo com alegria os primeiros raios de luz. Poderei voltar a pedalar e tentar aquecer.
Como poderei retribuir tanta generosidade?
Uma forma, para nos tao simples e acessivel, e bastante apreciada por estes lugares: a fotografia. Estes rapazes (com parcas roupas furadas e remendadas, sandalias sem meias, vivendo na montanha e sujeitos a duro trabalho) agradecem muito a oportunidade de poderem ser retratados.
Com a promessa de envio das imagens para as direccoes que me apontaram, saio em direccao a Losar.
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Outro belo encontro! Nao bastava estar a viver esta experiencia himalaica num ambiente onde me sinto tanto a gosto...
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O terreno continua muito mau. Num planalto onde, finalmente, encontro sol descoberto para me aquecer, aprecio os estragos da noite anterior. Nada de especial: um suporte de garrafa de agua partido e o guarda-lamas torcido (...uma vez mais; esta e a sua segunda especialidade, para alem da principal).
Apos uma reparacao, a 4000m, continuo viagem.
Estava longe de Losar. Poderia ter chegado na noite anterior mas o terreno nao conhecia melhoras. Significava, duras penas.
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Em Losar, uma pequena aldeia, tomo o pequeno almoco e apresento os meus repeitosos cumprimentos, e passaporte, ao policia.
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Benvindo seja o alcatrao!
Os meus amigos da noite anterior ja me tinham dito: "After Losar, very best! Black, black!" (apontando para o chao).
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Cruzo a ponte sobre o rio Spiti e continuo a pedalar.
A energia esta em baixo. Acho que assinala a noite mal dormida mais o tardio repor de forcas do pequeno-almoco...
Em Hansa, outra aldeia ainda mais pequena que Losar sou recebido por criancas que fotografo e que mais a frente me disturbam a sesta. Sao obedientes e terminam respeitando a horizontalidade do ciclista.
Recupero alguma forca.
Como em Hal e chego a Kaza, povoacao maior. Tinha percorrido 72Km, fraco de energia mas com o vento em misericordia e paisagens empenhadas em fazer esquecer as dificuldades.
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Este post segue com uma unica imagem, a menina que tive por companhia durante o almoco de ontem.
A ligacao a internet e demasiado lenta e irregular para conseguir mais uploads. O texto foi escrito por etapas (aquelas em que a corrente electrica esta disponivel).
Nos "intervalos" tratei dos tramites para obter o inner-line permit. Dentro de um dia, entrarei em outra zona restricta e controlada.
Tenho concedidos 7 dias para fazer uma parte da estrada. Serao suficientes para o que pretendo, levando-me a pedalar a menos de uma dezena de Km's da fronteita tibetana.
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Muito obrigado pelas vossas mensagens e pelo voto de confianca a corrente.
Eu tambem acredito que chegara ao fim.
Um grande abraco a todos.

Quarta-feira, Agosto 29, 2007

Ladakh.


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Dia 105, 5940Km. Leh, India.
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Na noite anterior a nova etapa a pedais, em Vashist, reordenei todo o conteudo dos alforges. Tratava-se da vespera de um desafio e sentia a viagem como um novo comeco.
Observo cada peca de equipamento, sinto a natureza "expedicionaria" de todo o conjunto e um grande privilegio por viver este momento.
Os Himalaias... quem me diria... aqui estou, prestes a pedalar naquela que e apelidada de estrada mais alta do mundo
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Esperavam-me cerca de 500Km ate Leh, capital do Ladakh, tendo que superar dois portos acima dos 5000m de altitude.
Havia que aclimatar, esperando que o corpo, em esforco, reagisse positiva e gradualmente a maior dispersao de moleculas de oxigenio. As distancias, atraves de inospita montanha, entre lugares de abastecimento e dormida, tambem estariam em sintonia com a mesma escala de dificuldade.
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Ca cheguei, ao fim de 7 dias pela cordilheira himalaica, completando o trajecto ate Leh.
Como se nao bastasse sentir-me ja tao realizado por finalizar esta etapa, ter pedalado por paisagens impressionantes na companhia de novos amigos tornou ainda mais grandiosa a experiencia.
Nos ultimos 4 dias viajei com Xavi, Anna e Joan, catalaes, no mesmo tipo de veiculos e autonomia.
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Segue-se o relato, dia a dia, esperando que as imagens complementem o que a descricao escrita nao alcanca.
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Dia 1: Vashist > Khoksar _ 73Km
Saio cedo. Tomo um cafe com leite no mesmo lugar onde no jantar anterior repeti, ja exagerado em dose individual, o prato de esparguete com vegetais.
Havia que armazenar hidratos de carbono.
Vashist esta a cerca de 2000m de altitude e propunha-me alcancar, atraves de uma continua subida de 52Km, o Rohtang Pass, a 3950m.
Nos primeiros Km's encontro varias "lojas" de aluguer de roupa para neve. Do tipo mais engracado, sao uns sobretudos peludos que parecem caracterizar de "urso" quem os enverga. Os principais clientes sao indianos que sobem em excursoes ate ao "snow point".
A medida que o fresco da manha da lugar ao conforto termico dos raios de sol de mais avancada hora, vou subindo gradualmente, fascinando-me com a riqueza da vegetacao. A presenca humana torna-se reduzida assim como a natureza mais espontanea e preservada.
O tempo esta optimo e sinto-me bem, realizando que levo o esforco em boa toma.
Encontro um "engarrafamento" de veiculos que sobem, pois uma curva com piso enlameado torna a passagem mais dificil. Os mais pequenos atascam e todos ajudam para que a estrada fique desimpedida e a progressao continue.
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Por volta da hora de almoco, chego a Marhi (3400m).
Existe um templo e todo o resto das construcoes sao lugares para comer (Dhabas).
Dirijo-me ao "Italian Pizza Hut" na esperanca de encontrar esparguete. Nada, so pratos indianos e o batido e repetido chowmein.
Numa outra dhaba, onde reconheco caracteristicas tibetanas, pergunto por thantuk.
- "Do you have time?", perguntam-me.
- Claro, por thanthuk espero o que for preciso.
Comi uma das melhores sopas ate agora. Ao gaba-la, o satisfeito cozinheiro explica-me que o segredo esta em utilizar pouco oleo. Para que seja mais leve e se destaque o sabor dos vegetais.
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Ainda quero chegar ao Rohtang Pass e descer ate Khoksar, para dormir. Restam-me 16Km e 450m de desnivel. Tinha feito a parte mais dificil.
Passo o "snow point". Nao e mais do que uma timida presenca de neve numa sombria curva.
Ha sempre transito. Autocarros, camioes de mercadorias, 4x4 que fazem de uma tirada o trajecto ate Leh...
Marhi torna-se cada vez mais um ponto distante e a temperatura vai descendo a medida que o nevoeiro se adensa. Dificulta a percepcao da paisagem para alem de poucos metros.
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Cerca das 18:00, coloco a bicicleta junto ao marco que assinala o Rohtang Pass e fotografo o lugar. Quase a 4000m, em bicicleta, sinto esta ascensao como o meu "Toubkal" em duas rodas.
Havia pouco tempo de luz. Visto roupa que me mantenha confortavel face ao impacto do frio da descida e sigo para Khoksar, ainda a 21Km.
O piso esta pessimo, a estrada muito partida.
As vistas sao impressionantes, enquanto desco e a presenca solar se torna menos evidente. Curva apos curva, os pulsos doridos por tanto buraco e pedra solta.
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Khoksar recebe-me de noite. E um lugar com varias dhabas, um controlo policial de passagem e um quartel militar ja do outro lado do rio Chandra.
A policia toma nota dos dados do passaporte e pergunta-me se preciso de um lugar para dormir. Sao muito simpaticos.
-"Do you want a room or a bed?"
-"A bed is more than enough".
Um funcionario leva-me a um dormitorio gerido pelo governo. Uma camarata com umas 20 camas, ao preco unitario de 15 rupias, onde dormirei com a bicicleta a cabeceira e muito mais do que poderia pedir.
Ate a hora, parece que dormirei sozinho. Saio para jantar, arroz com caril de vegetais na dhaba em frente. Esta optimo e picante na mesma proporcao. Registo a media quilometrica do dia que termina enquanto tomo o habitual e nocturno "lemon tea". Um rato observa-me debaixo da mesa em frente, dando conta de algumas migalhas.
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Ja estou deitado quando chegam 3 ciclistas. Sao espanhois, da Catalunha. Fizeram de noite toda a descida a partir do Rohtang Pass, sob chuva intensa.
Mais tarde, chegam varios indianos que falam e fumam como se nao estivesse mais ninguem.
Estou cansado e nao custa nada chamar o sono.
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Marhi.






Snow point.





Rohtang Pass (3950m).




Descendo para Khoksar.

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Dia 2
: Khoksar > Keylong _ 46Km
Cruzo a porta do dormitorio aos primeiros raios de luz.
As dhabas ja funcionam e registam frequencia de camionistas que param para pequeno-almoco. Como uma chapati, picante, com batatas, e acalmo o "fogo" em dois galoes.
Cruzo o rio e sigo ao longo do seu leito, em plano superior, durante varios Km's.
Nem o desnivel, nem a distancia, sao dados previstos em dificuldade para este dia.
Prevejo um dia bem mais relaxado que o anterior.
Ha que ficar mesmo em Keylong. Nao deverei avancar mais. Este e o ultimo lugar mais "civilizado" onde me poderei preparar para o que se segue, ligar para casa e avisar que nao comunicarei por alguns dias.
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A 24Km, em Gondhla, almoco tukhpa (uma sopa com massa de chowmein, bastante condimentada) e em Tandi, 13Km mais a frente, durmo a sesta debaixo de uma arvore. Ineditamente, so sou abordado por um rapaz indiano com as perguntas do costume (sobre a minha proveniencia, para onde vou e dados tecnicos do veiculo) quando ja desperto.
Sinto-me mais cansado. Faz calor e assinalo tambem o excesso do dia anterior.
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Chego a Keylong (3300m) a meio da tarde.
Na Guest House "Sumrila", junto a estrada principal, desco o valor de 300 rupias para metade e instalo-me num quarto que cheira a novo. O senhor que me atende e super simpatico. Tambem tem restaurante e prometo jantar ai.
Antes, desco a povoacao.
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Este e um lugar com vida propria, habitado durante todo o ano. Outros lugares apenas tem movimento durante o periodo em que a estrada esta aberta (meio de Abril a meio de Novembro). Quando a neve torna os passes intransponiveis, a ligacao faz-se apenas de helicoptero.
No lugar onde telefonei, volto a encontrar os ciclistas espanhois. Estao instalados no centro da povoacao. Falamos mais um pouco.
E provavel que nos encontremos, na estrada, no dia seguinte.
Janto muito bem no restaurante da Guest House, recebendo mais uma redobrada dose de simpatia.
Deito-me cedo. Cada vez mais, vou adquirindo um ritmo solar.
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Khoksar.


Criancas em Khoksar.






Gondhla.






Keylong.

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Dia 3: Keylong > Patseo _ 46 + 19Km
Abandono Keylong na primeira hora de luz e baptizo o dia molhando os pes ao cruzar um rio mais profundo do que julgava. Nao havia forma de contorna-lo, interceptava a estrada.
O caminho esta talhado numa encosta, enquanto o vale por onde corre o rio Bhaga proporciona, a Este, as melhores vistas.
Em Jispa, tomo um cha masala e acumulo as calorias contidas em dois chocolates. Ao sair, conheco dois ciclistas que vem em sentido contrario. Um casal, chileno/suica, pedalam desde Srinagar, ao longo de Kashmir. Compraram as bicicletas na India e vem bastante carregados.
Almoco em Darcha, antes da ponte sobre um afluente do Bhaga.
Nesta zona, apenas existem dhabas (lugares para comer). A povoacao fica do outro lado do rio.
Volto a atacar chowmein com vegetais.
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A partir do rio, ha que subir bastante. Uma larga subida com vento forte que me ajuda na parte "zig" da tipica configuracao das estradas de montanha.
Arrefece. Observo, num outro vale, o ambiente de tempestade. Deve chover com intensidade.
O piso torna-se muito mau e, a certa altura, tambem me toca sentir a chuva que vem cumprimentar o frio.
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Chego a Patseo (3830m).
Existem duas dhabas construidas em pedra empilhada sem argamassa e, apos cruzar de novo o rio, um posto militar.
Para entrar em calor recorro de novo ao cha. Desta vez com gengibre e acompanhado de dois ovos cozidos. A rapariga que me serve tem a cara completamente tapada, em proteccao termica. Na expressao dos olhos, percebo a sua delicadeza e simpatia.
Fala bem ingles. Combino voltar para jantar e vou tentar alojamento junto dos militares.
No quartel, encontro os homens de verde embrulhados em sacos-cama, a descansar na camarata.
Sim, e possivel dormir. 400 rupias.
Tento descer o valor. Digo que vem mais 3 amigos em bicicleta (os espanhois).
Ja vai em 300 por cabeca...
Continua a ser muito. Nao ha nenhum quarto com menos comodidades? (Este tinha uma cama e casa-de-banho adjacente, com agua fria, nao canalizada).
Mostra-me outra divisao, completamente vazia, onde poderei dormir no chao, por 200 rupias.
Continua alto. Deixo os alforges e digo que vou dar uma volta.
Convinha-me pedalar e subir mais um pouco, para aclimatar.
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Pedalo 9 Km ate Zingzingbar (4287m).
Desco directamente a dhaba para jantar. Peco arroz com vegetais e assisto a demorada preparacao. Tudo e feito no momento. O fogao a petroleo necessita tambem de ser previamente aquecido para facilitar a combustao. Um moco nepales ajuda a rapariga, descascando batatas, ervilhas...
Quando regresso ao quartel, ja tenho direito a um quarto com cama e casa-de-banho, ainda por 200 rupias. Nao consigo baixar mais.
Os espanhois ja tinham chegado. Saem para jantar a hora a que me deito.
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Darcha.





Darcha vai ficando mais longe...








Patseo.



Zingzingbar.

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Dia 4: Patseo > Sarchu _ 64Km
Nesta manha, forma-se a equipa luso/catala. Tomamos o pequeno almoco juntos.
Com Xavi, Anna e Joan, abordamos a primeira subida ate Zingzingbar, o mesmo trajecto que ja conhecia do dia anterior. Joan apercebe-se de que deixou o anorak na dhaba onde comemos e volta atras. Esperamos em Zingzingbar, assistindo divertidos ao modo lento em que uns operarios se dedicam a reconstrucao de parte de uma casa.
Mais a frente, os quatro reunidos, tomamos novo cha em outra dhaba. Continuamos a subir. Espera-nos o colo de Baralacha, a 4880m de altitude.
Paro muito para fotografar e vou ficando para tras. Acabo por subir sozinho.
Nao aprecio nenhum tipo de bolachas. Raramente recorro a este tipo de comida.
No entanto, aqui, a variedade de mantimentos nao abunda. A meio da subida como um pacote inteiro de bolachas de glucose...
A altitude comeca a sentir-se. A par do esforco, doi-me ligeiramente a cabeca. Sei que e um sintoma normal, aparecendo em cotas com estes valores.
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Quando chego ao topo, ja os meus companheiros estao a comer, abrigados do vento por umas ruinas. Estao tambem alguns ciclistas eslovacos, que descem, sem bagagem pois vem numa viagem organizada, com carro de apoio.
Valemo-nos da gravidade por 10Km e paramos em Bharatpu, onde existem algumas dhabas.
Comemos a serio. De novo, arroz com vegetais e copos de cha...
O resto do dia pedalamos de forma mais ligeira, em plano ou descendo, alcancando o
controlo policial de Sarchu (4253m), ao fim de 36Km.
Um pouco mais a frente, existem tendas. Sao restaurante e hotel. Sem um especial criterio de escolha, decidimo-nos pela "tibetan kitchen". Uma primeira tenda serve de cozinha/restaurante e outra, contigua, de dormitorio. 50 rupias para dormir.
Pedimos thantuk. "Big Thantuk", digo, porque era elevado o apetite geral.
As bicicletas nao cabem dentro. Ficam numa tenda pequena, onde cabem justas.
A porta do nosso "hotel" esta um autocarro com um pneu em baixo e alguns camioes estacionados para descanso dos condutores.
Um deposito de agua com uma torneira, a entrada, serve para asseio.
Servem-nos uma grande panela de thantuk e varias rodelas de chapati.
Na primeira tenda tambem dormem outros clientes, indianos, de Punjab.
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Baralacha (4880m).





Bharatpu.







Sarchu.

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Dia 5: Sarchu > Pang _ 74Km
Saimos cedo. O dia preve-se longo e dificil, com um porto de 5065m.
Sinto-me bem aclimatado. Deitei-me ainda com a persistente, nao demasiado forte, dor de cabeca mas despertei ja restabelecido. Parecia estar a aclimatar convenientemente.
Seguimos ao longo de um curso de agua que corre no fundo de um tipo de canyon.
Cruzamo-lo por mais uma ponte metalica (impressionante como aguentam o trafego diario de varios camioes...) e, um pouco mais a frente, comecamos a subida para o porto de Nakeela (4800m).
Ao longo de 20Km, vamos descrevendo curva apos curva e subindo, ao ritmo que a forca e a respiracao nos concede, tendo tambem que resistir ao calor.
Paragem para ingestao de bolachas enquanto apreciamos o desenho de um caminho em outra encosta. Sera de pastores? A onde acedera?
Os altimetros de Joan e Xavi ja marcam mais de 4800m e continuamos a subir. Sera que ja passamos e encaminhamo-nos para o Lachumgla a 5065m?
Falso alarme. A inscricao no marco nao engana. Mais longe do que supunhamos, alcancamos o Nakeela. Como em todos os cumes que temos encontrado, aqui tambem estao colocadas varias bandeiras de oracao budistas. Faz muito vento. Nao e o sitio ideal para parar e comer. Fazemo-lo um pouco mais a frente.
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Descemos cerca de 6Km e 100m de desnivel para voltar a subir.
Em 8Km, alcancamos os 5065m do Lachumgla. O primeiro 5000 de todos nos!
Estamos contentes, claro. Mas o dia ainda nao terminou. Para encontrar um lugar habitado, onde poderemos comer e dormir, ha que pedalar ainda 24Km. A descer...
Vamo-nos encerrando num vale impressionante, com formacoes rochosas que me recordam a Capadocia. E dificil olhar para a frente. A admiracao e constante com a paisagem em redor.
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E tarde e a temperatura desceu. O sol ja deu lugar a sombra nas paredes laterais por onde circulamos. E pena haver pouca luz para fotografar em condicoes.
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Em final de luz solar, chegamos a Pang (4440m). Outro ponto de controlo policial com as esperadas dhabas.
Estamos num plano superior e da porta de cada tenda todos nos chamam. Nao deve haver muitos turistas por estes dias...
E muito dificil tomar uma opcao. Porque escolher esta tenda e nao outra...
Joan demorou-se a fotografar e chega em ultimo. Encomendamos-lhe a tarefa: "te toca a ti elegir donde nos quedamos"...
-"Bueno... ayer nos serviran los hombres, hoy dejamos que nos sirvan las chicas..."
Optamos, em criterio justo, pela dhaba de onde umas raparigas nos chamavam.
No posto policial nao esta ninguem. Deixamos o registo dos passaportes para depois.
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Voltamos a pedir thantuk. Acompanhamos tambem com chapati e dal (lentilhas).
A noite passada tinha passado frio. Desta vez, recorro a uma das pesadas mantas disponiveis e chego a acordar com a sensacao de ter entrado num forno.
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Perguntamos se em Debring, a cerca de 47Km, existe algum lugar semelhante.
Debring fica antes da subida para o Tanglangla (5360m). Se nao pudermos ficar ai, no dia seguinte temos que tentar passar o cume.
Recebemos informacoes contraditorias. Perguntando por ali, uns dizem-nos que existem dhabas, outros que nao ha nada...
Por prudencia, far-nos-emos ao caminho tao cedo quanto possivel.
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Joan, Xavi e Anna. Sarchu.














Nakeela (4800m).






Chegando ao Lachungla.


Lachungla (5065m).










Pang.

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Dia 6: Pang > Rumtse _ 96Km
Dito e feito, saimos cedo.
Pedalamos 10Km, subindo aos 4700m. Chegamos a um planalto. O vento esta forte e de feicao.
A estrada e uma ampla zona de terra. Circulamos os quatro lado a lado, escolhendo o melhor caminho e as zonas menos arenosas.
Em determinado ponto, voltamos a encontrar uma so via, alcatroada. Vamos mudando de direccao e o vento comeca a fazer-nos frente, com a mesma intensidade com que nos vinha a acompanhar.
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Em Debring, de facto, nao existe nada. Apenas casas em ruinas. Construcoes todas semelhantes. Teria sido um posto militar?
Ao longe, vemos o cume do Tanglangla. Marcos na estrada indicam que esta a 20 Km. Como as distancias enganam... parece menos. Teremos que vencer quase 800m de desnivel, contando com os efeitos da altitude.
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O grau de inclinacao nao e pronunciado. A subida vai-se fazendo, devagar mas de forma ligeira. No entanto, a altitude limita-nos. Sentimos que o esforco e controlado e possivel mas o ritmo tem que ser aquele imposto. Nao podemos dar muito mais. O ar e seco. Noto-o bastante nas notas impressas (acerca do trajecto) que vou consultando. As folhas quase se rasgam so manuseando.
Forco-me a beber agua.
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A cerca de 6Km do topo encontramos duas tendas. Mesmo a calhar. Para nos reunirmos, e repor algumas calorias.
O fogao a combustivel torna o interior saturado de fumo. Tomamos cha negro com gengibre e os ovos cozidos sabem-nos de forma maravilhosa.
Muito pouco falta para atingir o ponto mais alto da rota. Estamos muito bem de tempo (luz solar). Parece que conseguimos.
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Conseguimos, de facto. O obturador da minha camara fotografica sobe e desce, registando os sorrisos do grupo iberico no topo do Tanglangla (5360m).
A camara tambem sofreu mal de altura e o auto focus, funciona de forma intermitente.
O valor elevado da cota parece unir deuses e crencas. O templo que ai existe, conjugadas no mesmo espaco, tem imagens hindus, budistas e catolicas.
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Nao temos muito tempo para celebrar. Tentaremos dormir em Rumtse (a ver o que encontramos...).
Ainda nos faltam 20Km. Serao em descida mas esta depende muito da qualidade do piso.
Ao inicio, o alcatrao e novo. Pouco depois, existem areas ainda por reparar. Sao trajectos curtos. Desceremos por bom piso ate perto de Rumtse onde chegamos, para que a tradicao se mantenha, quase de noite.
A 5Km do ponto esperado, encontramos duas dhabas e instalamo-nos (4300m).
O valor da dormida, nestes hoteis de tela, e sempre o mesmo: 50 rupias.
Encomendamos jantar. Desta vez, arroz com dal e... chapati. Repartimos uma cerveja quente e brindamos ao alcancado.
O tempo de preparacao do jantar parece-nos uma eternidade. Estamos mais habituados a restaurantes ocidentais, onde algum componente do menu ja esta preparado e acelera o processo...
O espaco horizontal e justo para os quatro. Distribuimo-nos em diagonais, cabeca com pes, em parte do perimetro circular da tenda.
Esta dhaba estava mesmo junto a estrada. Os camioes parecem entrar pela casa adentro...
Como nas noites anteriores, adormeco de imediato mas passo parte da noite desperto.
A insonia e um sintoma comum no processo de adaptacao a altitude.
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Controlo policial em Pang.


Pang.




Ao inicio do planalto.











Dhaba antes do Tanglangla.




Anna, Joan e Xavi...


...no Tanglangla (5360m).



Descendo para Rumtse.

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Dia 7: Rumtse > Leh _ 85Km
O ar da manha, no interior, e muito pobre em qualidade. Ao fumo do fogao, junta-se o dos escapes dos camioes em frente da porta.
Apenas reconfortados por um copo de cha masala, decidimos arrancar. Tentaremos pequeno-almoco na aldeia de Rumtse.
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Logo cedo, tenho a sensacao de ter entrado num outro pais. As construcoes sao diferentes, assim como a fisionomia das pessoas. Tenho vontade de fotografar a cada metro.
Apos comermos em Rumtse, progredimos de forma muito lenta. Estamos deslumbrados com a paisagem, com as marcas culturais... queremos registar tudo.
O relevo apresenta-se em descida. A estrada vai bordeando um rio.
Encontramos pequenos povoados onde figuram varios "Chortens". Sao monumemtos funerarios que contem as cinzas de Lamas ou de outras importantes figuras religiosas. A crenca sustenta que a presenca destas construcoes afugenta os maus espiritos.
Este dia sera, de facto, de uma grande riqueza cultural.
A fronteira natural que atravessamos durante os tres ultimos dias, atraves de imponente e despovoada montanha, trouxe-nos outra, muito distinta, realidade cultural.
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Em Upshi (3500m) vemos, pela primeira vez, o rio Indus.
Mais a frente, a 16Km, almocamos em Karu. Antes, circulamos por mais de 5Km de uma area militarizada. O controlo de kashmir (a proximidade com a China e o confronto latente com o Paquistao na indefinicao de fronteira) pretende-se assegurado...
Na Punjabi Dhaba e-nos apresentada uma travessa em inox, compartimentada. O espaco maior destina-se ao arroz. Outras 3 concavidades albergam variedades distintas de confeccao (sobretudo condimento...) de vegetais.
La fora, o calor, que subiu quase de forma extrema, torna muito maleavel a lona dos alforges.
Um mosteiro, ao longe, impoe a sua presenca, dominando todo o cume de um monte. Enquanto nos aproximamos, trocamos de bicicletas. Queremos experimentar tudo!
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O mosteiro fica a um curto desvio da estrada e decidimos visita-lo.
No primeiro metro sobre a ponte de madeira, que havia que cruzar, a minha corrente decide quebrar. E a segunda vez. Tenho algumas duvidas sobre a resistencia de proximos quilometros.
Demoro-me muito na reparacao. A ferramenta que trago, para abrir os elos, esta semi-partida e faz com que a tarefa exija a paciencia de um ourives. Algo nao muito facil com o sol a escaldar e dois indianos colados a observar, a 40 cm...
Demoro-me tanto que Xavi e Joan voltam atras para me ajudar.
Bom, a corrente esta fechada, mais curta... experimento um pouco... salta na cassete, de forma regular, a mando dos manipulos e do desviador... veremos quanto tempo mais aguenta.
Visitamos o mosteiro e saimos apressados. Fez-se tarde.
Ainda ha Km's para Leh e algo de subida.
Encontramos muito mais transito. Atravessamos varias povoacoes. O Ladakh tem realmente muitas novidades em relacao aos dias anteriores e continuamos fascinados com a diversidade.
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Pedalo mais junto a Joan. A 15Km do destino digo-lhe: " Leh... quien se lo diria. Lo logramos! Estamos tan cerca y parece que llegamos aqui como si nada...". Acabo de dizer isto e o vento revela-se extremamente forte e contrario. Querendo mostrar que chegar a Leh nao e tarefa assim tao facil e que algum esforco extremo nao ficara apenas em memoria mais antiga.
De noite, como constancia, chegamos a capital do Ladakh (3523m).
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Hotel Rumtse



Criancas em Rumtse, onde tomamos
o pequeno-almoco.













Upshi.


Chegando a Karu.





Mosteiro Stakna.





Mosteiro Thiksey.




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Sinto-me muito satisfeito. Reforcado na confianca pela experiencia, privilegiado por ter podido viver e apreciar magnificas paisagens e ambientes.
Pela oportunidade de o ter feito na companhia, muito apreciada, de novos amigos em quem encontrei tanto em comum.
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Como incentivo a tentar este desafio, tive as preciosas notas de Pedro Pedrosa.
Esteve aqui outras vezes e me cedeu apontamentos fieis de distancias, desniveis e descricoes de lugares para abastecer e repousar.
Fundador de uma muito inspirada agencia de viagens; onde propoe este mesmo trajecto como programa assistido.
Interessados nesta, ou em outras aventuras, poderao consultar:
http://www.a2z-adventures.com/
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Radio Tamarugo continuara em territorio himalaico.
Caso a ligacao a espaco virtual o permita, tentaremos contar vivencias posteriores.
Um grande abraco a todos.

Segunda-feira, Agosto 20, 2007

Vashisht.

Existem novas imagens, no final do post, inseridas a 21/08.
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Dia 96, 5426 Km. Vashisht, India.
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Por fim, encerrei o periodo sedentario.
Quanto tera enriquecido a memoria e saido valorizada a experiencia ao longo de 22 dias entre McLeod Ganj e Dharamkot?
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O jantar do dia anterior a nova partida foi na companhia de Natacha (com quem aprendi muito mais do que Tai Chi; a ela devo inumeras pistas), Sarah (israelita, tambem estudante de Tai Chi), Helene e Antonio, de Taiwan... num restaurante coreano.
Depois fomos ao cinema (uma sala minuscula com um ecran plasma onde a programacao diaria se faz a conta de 5 dvd's). O cartel muda frequentemente e a seleccao e vasta. Tambem se pode "encomendar", como aconteceu com o filme que vimos: "El labirinto del fauno".
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Na ultima manha, pedalei apressado a tentar encerrar ultimos detalhes...
Tomei um cha de gengibre no "Peace Cafe" (recem descoberto, entrando de imediato nos lugares de topo da escala de preferencias); enviei, para Portugal, um pacote de livros acabados de adquirir (by sea, tardara 3 a 4 meses a chegar mas o valor e mais do que convincente - menos de 3 euros); devolvi um livro (relato de uma viagem em bicicleta entre a Mongolia e a India) a Carole, do Quebec; despedi-me do Tashi na mesma cozinha onde recebi instrucoes de culinaria tibetana; entreguei dinheiro a um outro amigo carenciado (do qual nunca soube o nome mas retive a simpatia); e despedi-me de Kessavalureddy...
Esta ultima despedida foi particularmente emotiva. Kessavalureddy tinha preparado um pacote para me entregar com mantimentos para a viagem (3 pacotes de bolachas e duas garrafas de refrigerante "Limca", muito do meu agrado). Como garante de seguranca e proteccao, tambem me ofereceu dois amuletos. Uma pulseira de contas, bastante usada, fez-me perceber que era de seu proprio uso. Que dizer...
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A minha encomenda de livros e embalada por um
costureiro tibetano, ao lado do posto de correios.


Bus Stand em McLeod Ganj.




Ainda Dharamkot.


Entre McLeod Ganj e Bagsu.


Cemiterio junto a igreja "St. John in The Wilderness". McLeod Ganj.

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Apenas ao inicio da tarde dou de novo inicio a viagem em bicicleta, com esta totalmente carregada. Por tanto tempo em repouso, a sensacao parece de estreia; assim como descer a Dharamsala, uma povoacao totalmente indiana, com o caos que caracteriza estes nucleos.
De choque, reaprendo a experiencia. E necessario reagir constantemente. Os sentidos alerta, respondendo ao instinto de sobrevivencia.
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Dia chuvoso. O impermeavel adquire peso nas grossas gotas de chuva e, na medida inversa, vou-me desprendendo de tolerancia na intensidade das buzinas.
Quando paro para me abrigar de descargas mais fortes encontro conversa com os os locais e as perguntas do costume.
Saudacoes muito amistosas, sempre. Bracos estendidos a partir das janelas dos camioes e das motos que, em aproveitamento maximo de recursos, levam sempre 3 passageiros: "Hey man, Hey sir, Hey friend...".
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Entre Dharamshala e Palampur.

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Ao fim de apenas 47 Km, dou o dia como terminado, enquanto espero por um momento mais seco, abrigado no toldo de uma joalharia, em Palampur.
Voltei a estrada. Significa voltar a alojar as horas nocturnas em quartos de hotel que correspondam ao orcamento estipulado; familiarizar-me com a surpresa presente de cada vez que abro uma porta...
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Em Palampur, as primeiras horas de luz dao a entender que, por enquanto, o dia e de sol.
Tentarei chegar a Mandi.
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Estava avisado. Encontro-me em territorio pre-himalaico. So ha lugar para esperar que o terreno nunca seja plano.
Assim foi. Tambem repleto de curvas, foi este dia.
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Criancas em Baijnath.

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Paisagens soberbas, carregadas de vegetacao. Os montes que avisto, mais proximos ou mais afastados, tem vegetacao ate ao cume. A presenca de humidade e constante e volto a sentir o calor dos primeiros dias em solo indiano, adormecidos e amenizados na memoria pelo particular microclima de McLeod Ganj (outra das boas caracteristicas do lugar...).
Ja nao encontro menus tibetanos, os meus preferidos, e, na escolha dos pratos indianos, volto a negociar entre a vontade (pouca) e a tentativa do minimo de agressao gastrica.
Ate agora, a saude tem levado a melhor.
Frequentemente, a jogar pelo seguro, recorro a uma variante chinesa: "veg. chowmein".
Tenho abusado de "Butter Chapatis" (aquela medalha espalmada de pao indiano, com manteiga), ao ponto de o apetite me pedir treguas, ate ver, nessa opcao.
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Criancas, antes de Mandi.










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Em altura do dia fechar o tempo de luz solar, cruzo a ponte sobre o rio Beas, acedendo a Mandi.
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Mandi.

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Toda a confusao presente nas ruas da cidade. Esta e a India que esperava e ha que continuar a reagir, tentar e lograr a positiva adaptacao.
Janto na rua e adoco a sobremesa com um batido de manga onde alguns bagos de amendoim formam pequenas ilhas.
Passo a noite no Hotel Standard.
Sonhos embalados pela esperanca, sugerida no verde das paredes do quarto.
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Hotel Standard. Mandi.

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Novo dia e nova deslumbrante presenca solar. Chegaria a Manali?
Os primeiros quilometros, ainda com o gosto do Black Tea tomado numa das ultimas esplanadas de Mandi em direccao a Pandoh, sao feitos na companhia do rio Beas.
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Rio Beas.






Primeiros quilometros apos Mandi.

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Recebo e acumulo saudacoes de inumeros estabelecimentos junto a estrada; de camioes que compartem carga e passageiros em sobredose; motards que param para falar e so seguem de novo viagem incluindo-me no registo fotografico das suas camaras...
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Blow horn!








Entre Mandi e Kullu.



Buntaro. Antes de Kullu.

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A chegada a Manali, prevista para este dia, ficou irremediavelmente comprometida na demora da sesta sobre um muro lateral a estrada e a conversa com uma familia de Sikhs (vertente Hindu caracterizada, de forma mais visivel, pelo uso de turbante e uma pulseira metalica que, particularmente, reprova o sistema de castas) durante o almoco.
Qual Manali... entre gelados e copos de cha Masala (leite fervido com cha e especiarias) fui entretendo a pouca motivacao ciclistica, acabando por a albergar definitivamente no Hotel Central, em Kullu. Tinha percorrido 74Km, ficando ainda a 40Km do destino previsto.
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Kullu.

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A chuva continua a preferir outros lugares e abandono Kullu sob a completa presenca do astro rei. Logo apos os iniciados quilometros, primeira paragem para espalhar doce de morango em fatias de pao de forma. Completo o devido "reconforto" numa chavena de cafe com leite e... continuo a subir.
Encontro pomares, de macieiras. Lugares junto a estrada servem de pontos de venda e armazenamento. "Himachal Apples" le-se em colunas empilhadas de caixas de cartao.
Numa das bancas, onde me disponho a comprar, a fruta e-me oferecida por dois rapazes que dao lustro e empacotam macas. Tem os olhos raiados de vermelho pelo fumo da Cannabis.
As dentadas e pontiagudas folhas desta planta reconhecem-se por todo o lado, onde cresce de forma espontanea.
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Entre Kullu e Manali.

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A medida que me aproximo de Manali proliferam as ofertas turisticas. Alojamento e actividades como rafting e trekking.
A horas de almoco, encontro a cidade desejada.
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Aproximando-me de Manali.


Encontro o primeiro elefante.
Apesar de pesado, o andar e suave e elegante.



Manali

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No Peace Cafe de Manali volto a mergulhar a colher numa malga de Thanthuk (sopa tibetana, com variedade de vegetais e massa fresca).
Esquivando menores que, com insistencia, me tentam engraxar os sapatos sigo viagem, sempre a subir, ate Vashisht.
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Entre Manali e Vashisht.

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Aqui, agua quente e sulfurea brota naturalmente e e aproveitada em piscinas a ceu aberto e de uso livre. Dai tambem a carga de turistas, convivendo com os locais envergando traje tradicional. As mulheres usam um lenco na cabeca como ainda nao tinha visto na India, apelando mais a memorias turcas.
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Desde Vashisht, pretendo seguir para norte em busca de outras latitudes e do desafio de novas altitudes.
A ver como nos portamos... a bicicleta acusa ja o peso dos quilometros e da manutencao nao possivel, sobretudo ao nivel da transmissao.
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Novamente agradeco a ampla resposta solidaria ao apelo de Radio Tamarugo. Nem toda a oferta foi entregue. Esperando que concordem, tomo a liberdade de a considerar como credito. Uma especie de bolsa a qual darei, ou nao, uso conforme as situacoes particulares que virei a encontrar.
Tudo sera devidamente reportado e todos receberao um agradecimento pessoal.
Um grande abraco. Radio Tamarugo aproxima-se de verdadeiro territorio himalaico e voltara para registar os quilometros que agora se seguem.
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Vashisht.




Mosteiro budista em Manali.